Crónicas Matinais

[ segunda-feira, junho 23, 2003 ]

 

E então abri a janela e vi-a. Os arcos gémeos; imponente.A ponte d'Arrábida.
O meu pai tinha-me prometido atravessá-la comigo, de carro, claro.Faz , daqui a bocadinho, anos; tal como eu e a ponte. A ponte, que nasceu dois dias mais cedo, fazia, na altura, dez anos.Eu fazia dois. Mas lembro-me.
Ou se calhar não lembro, mas de tanto me falarem desta travessia , de tanto a imaginar assim magnífica e mágica, é como se me lembrasse.
Associo sempre a ponte d' Arrábida ao São João e a mim. Tudo dentro da minha cidade.
E é impossível pensar noPorto sem pensar nas pontes. E no São João, claro.( E no FCP, carago! )
E, nos próximos milhões de segundos, vai estar tudo em festa; aliás já está.
Ainda hoje é tradição ir para as pontes ver o fogo na noite de 23 para 24. Martelinho, alho porro, manjerico, e uma "erva de cheiro" (nunca me lembro qual é )na mão.
Toda a noite e madrugada. Tanto de um lado como do outro. Porto e Gaia, de pontes dadas. São as mãos.
E faz medo atravessar as pontes a pé...mas nessa altura não há medos, porque , lá em cima, é possível estender a mão e tocar nas luzinhas e no fogo que rebenta no céu.
E os portuenses ficam muito juntinhos ,a olhar para o éter e a ver as estrelas e o fogo-de-artifício a brilhar. Pum...Pum.. e a estoirar.

[ A ponte da Arrábida faz 40 anos. Eu ainda não...ufff! ]

O Porto é , também, uma cidade de poetas. Onde se respira poesia. Mas- ainda hoje é assim- muitos deixam a cidade. Tarefa fácil, parece-me, justamente porque não faltam pontes de passagem para outras margens.
Um desses poetas é Sousa Viterbo.Lembrei-me dele porque, há 30 anos, quando atravessei a ponte d' Arrábida pela primeira vez, o meu bisavô ainda era vivo e foi ele que levou Sousa Viterbo lá para casa. Era um amigo, como ele dizia. "E bom médico." E era um poeta.E era do Porto.
E , sobre ele, Camilo Castelo Branco escreveu: "Sousa Viterbo: É médico, como Júlio Dinis, e também do Porto, donde os poetas, que lá não morrem como o rouxinol do amador da Menina e Moça, alam-se para outras montanhas como as cotovias quando ouvem crocitar o corvo na escarpa da serra."
E escreveu muitas coisas mais, mas não as tenho comigo. Tive de ir "roubar" a frase aqui. E também tem lá um poema . Muito bonito e expressivo.
O que tem a ver isto com a ponte, o São João e eu, não sei bem. Mas parece-me muito lógico.





Ana [6/23/2003 02:09:00 da tarde]