Crónicas Matinais

[ terça-feira, julho 01, 2003 ]

 

Bom dia!

Li, em tempos, uma frase que resume o que penso ser fundamental entender: O que é imortal é o produto da inteligência e do espírito humano, o resto é fumaça.
Já não me recordo quem a escreveu. Seja quem for, tem razão. A frase vinha a propósito dos livros e da leitura. Do amor maior à literatura, e ao acto solitário da leitura.
[Lá em casa tenho uma cópia de um retrato de Baudelaire no solitário exercício da leitura; também não me lembro quem o pintou.]
Há dias , relendo esse leitor apaixonado -George Steiner, voltei a lembrar-me de como os intelectuais "sofisticados" são quase todos humanistas pessimistas. Em como Steiner, por exemplo, ou Harold Bloom , lamentam o declínio , a vulgaridade, a falta de vontade de correr atrás da sabedoria; de buscar o conhecimento através de rituais próprios , dessa entrega da mente com o fim de entender as palavras, as ideias, e os seus significados. Lamentam o fim dos clássicos, dos bons e velhos clássicos, lamentam a soberania da tecnologia; interrogam-se de como é possível ainda poder ler; em paz e sossego.
Isto porque há ruídos vários, chatices muitas, pouco tempo, azáfama constante e, basicamente, falta de interesse.
Steiner, no Leitor Incomum , recorda como -em outros tempos- ler era quase uma cerimónia mística: usando como exemplo a pintura de Jean-Baptiste Chardin - O Filósofo Lendo- Steiner recorda como ele se vestia para a ocasião mágica da leitura, como se preparava com esmero para se encontrar com os "grandes". Como imperava o silêncio, a quietude, a ausência de "trivialidades estridentes". Mas, ainda mais do que isso, à queda do prestígio da leitura. Em como já quase não há orgulho em se ser um leitor qualificado .
Claro que não concordo-pelo menos em absoluto- com a aura aristocrática , exclusiva , limitada a uma elite instruída e requintada que a leitura assumia nesses tempos. Mas também a mim me choca a banalização do acto.
O que , de facto, sinto, é que já não se dá à leitura a importância que ela tem. Porque são poucos os que fazem, e volto a citar Steiner, "uma leitura bem feita", honesta .
Agora todos , ou quase todos, citam muito. Compram as muitas e boas enciclopédias que há e o conhecimento fica por elas formatado. Citam muito, conhecem os nomes dos pensadores, analistas, comentadores, filósofos, etc. Citam a torto e a direito mas, pergunto eu, terão realmente lido as obras ? analizado as ideias? pensado em vez de decorado?
Eu odeio enciclopédias, admito e peço desculpa se isso é pouco moderno.
Por cada citação que leio de Horácio, Virgílio, Dante, Milton, Shakespeare ou Camões eu tremo. Tremo porque temo que a citação tenha sido fruto de uma pesquisa "googoleana" , enciclopédica, para inglês ver.
E isso faz de mim, actualmente, uma fundamentalista!
Mas sobre o que eu penso ou deixo de pensar ninguém está interessado; já sobre os livros tenho a certeza que sim.
Por isso se me meteu na cabeça escrever este post; esta entrada.
Para dizer que eu também tenho um respeito sacerdotal pelos livros. Os bons; os clássicos. Os que ficam para sempre.
Porque as obras humanas , sejam de mármore, granito ou bronze acabam por se destruir, por perecer. Os livros , os bons, não!
Tal como Steiner recorda , Flaubert, às portas da morte, enfureceu-se pelo facto da sua personagem Emma Bovary lhe sobreviver.
Uma provinciana , adúltera, sem qualidades dignas de crédito, vai permanecer para sempre; imortalizada por ele. E o autor ali estava, a agonizar , a ficar sem vida. Porque as suas palavras ficaram gravadas no tempo.
É quase um paradoxo: o que é feito de pedra, de aço , e que é aparentemente mais forte , acaba por desaparecer. E o que é aparentemente mais frágil, não concreto, a palavra, o papel impresso, numa palavra: o livro, fica para sempre.
E depois digam-me que não são mágicos os livros!

O meu sonho é ser, um dia, o Manguel de saias! Esse leitor apaixonado e profissional, que ama os livros , as leituras e, basicamente, a vida inteira que está, como se sabe, dentro das palavras.

Confissão: Deu-me para escrever este texto mais sério porque, nos blogs, é fácil citar sem provar méritos; porque se misturam livros com o que chamo panfletos de supermercado , ou seja, a chamada "literatura" light; porque ninguém no seu juízo perfeito pode -conhecendo os verdadeiros livros- defender , e comprar, essas crónicas de mulheres casadas, historinhas de pin-ups mediáticas, desabafos de treinadores e jogadores de futebol, e onirismos de amantes de directores de jornais!

E agora vou já pensar numa imagem bonita para colocar a seguir, para não maçar mais. Talvez uma bonita paisagem da Irlanda, esse ninho de génios!




Ana [7/01/2003 11:39:00 da manhã]