Crónicas Matinais

[ segunda-feira, julho 28, 2003 ]

 

E então vamos abrir a porta e aparece-nos um senhor com cara de quem vende calendários, porta-a-porta, mas que afinal é o senhor que conta a luz e,estremunhados, lá lhe dizemos para entrar; e o senhor entra e olha para nós, e nós tentamos esconder as pernas que temos dentro de umas cuecas velhas, mas muito confortáveis, com a t-shirt manchada, mas de estimação, que puxamos ( sim, isto é presente do indicativo) o mais para baixo possível. E,armados em seres invisíveis, deslizamos até ao quarto deixando o senhor a abrir a porta do armário onde está o contador da luz e, já dentro do quarto, tentamos encontrar um robe decente ( que , afinal, já não mora lá em casa -onde estará? ) , esfregamos os olhos que nem sequer tivemos tempo de lavar, enfiamo-nos numas calças velhas e o cabelo num elástico e vamos para a beira do senhor, que isto nunca fiando.
E, de repente, começamos a sentir uma necessidade absolutamente urgente de fazer xixi, mas -malditos arquitectos- o contador da luz está mesmo colado à casa-de-banho, e a porta do palácio das necessidades não fecha, está estragada ; e começamos a apertar as perninhas , disfarçadamente, e começamos a tentar distrair o nosso cérebro dessa necessidade urgente e, armados em parvos, começamos a falar ao senhor; conversa de circunstância. E mal dizemos a primeira frase, percebemos que foi um erro terrível, porque o senhor é dado a conversas e conta-nos logo a sua vida toda, desde os seus tempos de menino em Freixo de Espada à Cinta , ao seu casamento em 1963; passando pelos tempos de namoro. E depois o nascimento do primeiro filho; depois do segundo...e mais tarde do terceiro. E depois conta-nos como foram difíceis esses tempos e que, porque o trabalho era muito e pesado, tanto ele como a mulher foram ficando doentes, com várias doenças . E depois pormenoriza as operações, tratamentos e medicação...e quando já está a contar-nos como foi difícil a segunda operação à perna esquerda-dele, e às varizes -dela , nós começamos a sentir que nos tranformamos numa espécie de garrafa que enche, enche...enche ...e parece que nos estamos a metamorfosear num enorme penico , perigosamente cheio, que -em breve- vai explodir...
E já só conseguimos abanar a cabeça -dizer palavra é mentira- porque abrir a boca exige um esforço sobre-humano e porque se abrirmos a boca entra ar, e , mesmo sem perceber patavina dos fenómenos da natureza animal, sabemos que a entrada de ar provoca uma pressão insuportável nas nossas bexigas ...
E abanamos a cabeça e apertamos as perninhas de tal forma que a circulação sanguínea pára ; e nós começamos a ver tudo a andar à roda, à roda ...e sentimos que estamos a entrar em coma e que já não podemos aguentar mais e, de repente, nada mais importa e deixamo-nos explodir !...


E então percebemos que os lençois estão escandalosamente molhados e que estamos atrasados ! E levantamo-nos de um salto, novamente estremunhados , e com um dilema :
Mudar os lençois ou deixar o serviço para a nossa empregada , visto que estamos terrivelmente atrasados ?
Deixar a nossa empregada imaginar que nos dedicamos ao golden shower, ou tomar um duche a correr e ir embora porque temos de lutar contra o tempo que já não volta para trás?
E pensamos- deixa-se os lençois! Mais vale golden shower do que alguém imaginar que com 32 anos fazemos xixi na cama durante o sono!
E lá nos esfregamos bem no duche e nos vestimos a correr - preocupadíssimos com noções alternativas de wet dreams- e agendamos, mentalmente, uma vistoria atenta à secção Tena Lady do supermercado.

E , já prontos, lembramo-nos que isto já não nos acontecia desde os 6 anos de idade e que, se calhar, foi um incidente sem importância; uma vez sem exemplo; apenas e só isso. E até nos rimos.

E depois contamos isto a toda a gente!

Ana [7/28/2003 10:29:00 da manhã]