Crónicas Matinais

[ sexta-feira, julho 04, 2003 ]

 

Estive a ler este blog tão interessante que é o Mar Salgado e devo dizer que concordo , o mais possível ,com o que lá está escrito sobre o affair Berlusconi / boches.
Pois.
Sei que é da mais elementar falta de chá eu chamar boches aos alemães, mas é mais forte do que eu. Tem a ver com memória, raízes, pele, recordações, maus-fígados, etc. Mas, lá está, eu não faço política, limito-me a comentá-la e, aqui, a fazê-lo sem preocupações editoriais.
Eu não gosto do Berlusconi; todos sabem, ou deveriam saber, que ele é um demagogo , um populista e que é um bom representante da melhor linhagem mafiosa italiana. Mas foi democráticamente eleito e, por isso, há que levar com ele.
Seja como for, em sendo preciso dar sangue, dava-o mais depressa a meia dúzia de Berlusconis , do que a um alemão-não judeu.
Peço desculpa ; sei que é básico da minha parte, mas é o que sinto. E quem diz a verdade não merece castigo.
Claro que foi um dislate do senhor Berlusconi. Isto porque é óbvio que a diplomacia foi "inventada" para estas ocasiões. i.e., para quando nos apetece muito chamar nazista-filho-da-puta a um boche, mas não se pode fazê-lo, sendo melhor tratá-lo por arrogante.

Entretanto, e como o fim-de-semana está à porta, assim como o shabath, começo já a despedir-me até à semana.
Andei à procura de novos poemas, isto porque sou de tal maneira apegada aos meus amores/favoritos e aos clássicos, que se torna difícil não me repetir.
De maneira que me lembrei de colocar aqui um poema, belíssimo, de um amigo e colega da blogosfera; do meu querido Hank. Podem encontrar poesia no seu blog e na nossa nave mãe.

só mais uma coisa
não te esqueças
de me lembrar
de não me esquecer que
quase tudo
é mesa
serrote
que as estantes se edificam
trabalho
plaina
turquesa
dão forma
lixam a forma
fodem a forma
formam a forma
descobrem significado
na sua acção
no limar
no lixar
no serrar
nos pregos que entram PAM
a cada batida PAM
entram mais fundo PAM
a cada estocada PAM
a cada ranger da madeira
que dá luta
que não quer obedecer
não quer perder a luta que ganha
quase sempre
e no retorno do torno que torna a tornar
há a violência do início da batalha
há puas que saltam e que entram na carne
fundo
mais fundo
há as mãos que moldam e se moldam
que têm que obedecer
obedecer
obedeçam
agora
e façam obedecer a matéria
obedeçam

e façam o que foi planeado
para que possa chegar ao
fim :
o fio de prumo ri-se da pobre matéria
e a matéria sabe que na sua derrota
se tornou mais alta que a sua origem
mais humana


HankChinaski, 2002-11-27
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Da mesma maneira, e à mesma fonte, fui buscar um outro poema, também de um amigo . Do V., que tem mais heterónimos que F.Pessoa, e que é, seguramente, um dos elementos da blogosfera mais completos, lúcidos e talentosos.
Estou a falar deste amigo. Também no Pastilhas, se pode encontrar a poesia dele. Memórias-nada inventadas.

As sombras

Eu que gastava os dias
Fazendo nós das sombras
E via o mundo livre de espanto
Pasmei quando te vi
Tocas também nas sombras
Mas com dedos de oleiro
E as sombras um dia serão cacos
Mas são ânforas e estátuas
E foram argila primeiro

Ver-te depois
Foi uma música a crescer
O acorde pesado e estranho
A canção como voo de pássaro
Atar sombras é tudo o que sei
Não tenho jeito de oleiro
Os meus nós desfazem-se de noite
Quando as estátuas quase falam
E as ânforas ganham vinho

Espero o toque dos teus dedos
Frio, barrento, talvez final
Se ao cruzar os braços
Foi em nó cego que fiquei
Antes estátua que quase fala
Antes ânfora que te sacie
E depois caco de fina aresta
Já gastei os dias e sobrou
Uma sombra sem paradeiro

TuliusDetritus, 2002-12-04

Ana [7/04/2003 03:50:00 da tarde]