Crónicas Matinais

[ quinta-feira, julho 03, 2003 ]

 

Foi bom o retiro, mas foi curto.
Dormi , basicamente.

De qualquer forma, o mais importante é dizer que gosto de literatura, mas gosto ainda mais de poesia; e uma não engloba a outra.
A poesia tem vida própria. Um brilho mais puro. E então eu devoro poesia.
E teimo em escrever "poemas". Sai tudo torto, manco, é certo; mas continuo a tentar. Encho as gavetas da cómoda, da secretária, os baús , as burras que há pelas casas às quais pertenço, etc.
Vez por outra mando um desses versos, desses escritos, aos amigos e eles, como amigos que são, sorriem e lá dizem : oh, que bonito! que bem escrito!
Mas é mentira e eu sei que é mentira. Mas escrevo-os à mesma.
Aliás, sendo eu uma apaixonada pelos ditados populares, não poderia sê-lo ainda mais deste quem não arrisca não petisca.
Mas não vou aqui-para já- colocar "poemas"meus. Não quero acabar já com o blog!...

Vou é colocar mais poemas; de quem os sabe fazer ( e traduzir) como quem respira. Poemas daqueles que nos ficam gravados na pele.
Depois da febre das imagens; das fotografias e posters de filmes, declaro aberta a época da poesia-toda.

Cheio de Razão é o Amor

Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.

-Delicado é o aroma dos seus perfumes,
e o teu nome , unguento que se derrama.
Por isso te amam , as virgens.

Leva-me contigo, corramos juntos.

O rei levou-me para as suas câmaras.

Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.

Poema de Salomão- tradução livre de Herberto Helder

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Mi Vida Entera

Aqui otra vez, los labios memorables, unico y
semejante a vosotros.
Soy esa torpe intensidad que es un alma.
He persistido en la aproximacion de la dicha y
en la privanza del pesar.
He atravesado el mar.
He conocido muchas tierras; he visto una mujer
y dos o tres hombres.
He querido a una niña altiva y blanca y de una
hispanica quietud.
He visto un arrabal infinito donde se cumple una
insaciada inmortalidad de ponientes.
He paladeado numerosas palabras.
Creo profundamente que eso es todo y que ni veré
ni ejacutaré cosas nuevas.
Creo que mis jornadas y mis noches se igualan en
pobreza y en riqueza a las de Dios y a las
de todos los hombres.

poema de Jorge Luís Borges
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Queria, também, agradecer ao jornalista Ilídio Martins , pelo link no seu óptimo Esmaltes e Jóias.
Esmaltes e Jóias fez-me, de resto, lembrar este poema do poeta chinês Tu Chiu Nang:

Usem as vossas jóias e os vossos vestidos de seda.
Saboreiem enquanto é tempo os frágeis prazeres da vida.
Os ramos ficarão despidos quando vier o grande frio.
Sem o sol, emurchecidas as flores, que é a vida? Apenas saudade.


A tradução , belíssima , é de António Ramos Rosa.



Ana [7/03/2003 03:51:00 da tarde]