Crónicas Matinais

[ terça-feira, agosto 19, 2003 ]

 

Afinal os assuntos mais levezinhos é só a seguir.

Venho cá dizer umas coisas, poucas, sobre Maggiolo Gouveia.
Não me vou meter nas tricas políticas entre o PS( Ana Gomes) e o ministro da defesa porque acho que isso é joio.
O trigo é a memória; os factos.

Para muitos portugueses , e tal como titula a agência Lusa, fez-se agora «o adeus ao último mártir do Império.»
Eu não concordo.

É engraçado. Há poucas horas, escrevia eu sobre o meu nacionalismo.
Hoje vou ter de escrever como se de uma timorense se tratasse.
Porque, na questão de Timor ( que me é cara, desde que me conheço por gente ) , tendo a sentir-me nativa.

Não vos relembro a história , porque, julgo eu, todos a sabem. E se não sabem deviam saber.
Mas, esta manhã, ao ouvir as declarações do primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, não pude deixar de o perceber; mesmo não concordando totalmente com ele.

Mário Alkatiri , reagindo , para a agência Lusa, à polémica lusa sobre Maggiolo Gouveia disse: « Maggiolo Gouveia é o culpado pelo "holocausto" ( as aspas são minhas e do colega da lusa) timorense.»
Alkatiri acusa o tenente-coronel português de ter iniciado a guerra civil que conduziu aos 24 anos de martírio do povo timorense.
E diz não entender como é que Portugal lhe faz, agora, um funeral com honras militares.
E porquê? Muito simples.
É que Alkatiri lembra-se que, em 1975, Maggiolo Gouveia -precisamente em Agosto- renunciava à sua condição de militar português para aderir ao movimento da UDT contra a FRETILIN.
E lembra-se que , de facto, ele foi capturado pela FRETILIN , quando tentava entrar para a intendência, em Taibessi. Taibessi que estava já sob controlo da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente.
Mesmo negando que tenha sido a FRETILIN a mandar executá-lo ( o que se passou, realmente, não se sabe, a sua morte continua envolva em algum mistério), facto que eu duvido, mas é a história que interessa, não o que eu penso ou deixo de pensar; mesmo negando, dizia, Alkatiri recorda que Maggiolo Gouveia participou activamente no conflito.
No conflito que, de facto, desencadeou ( por culpa -muita- de Portugal ) a guerra-civil em Timor e que permitiu à Indonésia instalar-se lá e dizimar a maioria do seu povo.

Eu sei. Era a luta contra o comunismo e, na altura, valia tudo até tirar olhos.

Mas isso não impede que se analisem as consequências para quem lá vivia.
Portugal abandonou Timor à sua sorte.
Lemos Pires, e o resto da tropa, fugiu para a ilha de Ataúro.Maggiolo não fugiu. Ficou, é um facto. Mas, sinceramente ,não vejo aspectos positivos nessa decisão.

E também não entendo, mesmo respeitando muito os militares e a minha bandeira, pátria, etc, tal como não entende Alkatiri, que Maggiolo Gouveia seja, agora, transformado num herói nacional.

Não duvido que Maggiolo Gouveia amasse Timor. Mas também não duvido que ele foi um dos responsáveis pelo que se passou. Pela violência.

No funeral de Maggiolo Gouveia voltou-se ao passado. Abriram-se feridas , nunca realmente fechadas; destaparam-se baús antigos. Com ódios e rancores . E memórias.

D.Augusto César, bispo de Portalegre e Castelo Branco, disse de Maggiolo, durante a cerimónia :
« Um exemplo para o País. Morreu por algo maior do que a vida , que é a nossa fé.» E que pelo seu acto de coragem, palavras do bispo, mostrou um amor « à Pátria, ao Povo e a Cristo».

Ao ouvir, ou ao ler isto, fiquei triste. Por momentos senti-me em plena guerra colonial. Pior. Senti-me a ouvir Salazar e os velhos do Restelo a suspirar pelo Império.
E, por momentos, percebi como ser de direita e conservadora pode ser difícil.
Porque esses tempos não me orgulham.

E porque nem Maggiolo, nem Lemos Pires , nem muitos outros, podem , algum dia, ser apresentados, aos timorenses, como heróis nacionais.

Porque, como diz a sabedoria popular, e eu cito-a sempre que posso: de boas intenções está o inferno cheio.




Ana [8/19/2003 03:22:00 da tarde]