Crónicas Matinais

[ terça-feira, agosto 19, 2003 ]

 

Bom dia!


Recebi doze (12) emails , que muito agradeço,de doze companheiros e companheiras da blogosfera, pedindo-me pormenores da minha viagem ao Iraque.
A seu tempo, meus amigos. A quente ia sair disparate. Arreliei-me bastante por lá e como não pretendo ser injusta e como tenho, aqui no blog, o direito a dar a minha opinião, e não apenas a informar, prefiro arranjar as ideias. Depois conto tudo. Tudinho.

Mas há, no entanto, um "assunto" que gostaria de referir. Trágico mas, acredito, compreensível.Reparem que compreensível não significa desculpável.

No Domingo , em Bagdad, morreu mais um repórter( de imagem). Mazen Dana, operador de câmara da agência noticiosa Reuters.
É trágico , é triste. São os ossos do ofício.
Se pretendo desculpar os soldados norte-americanos que o abateram? Não!!
Estou apenas a tentar explicar como se trabalha , e o que se pode esperar, em palcos de guerra.

Dana estava a filmar o exterior da prisão Abu Gharib. Essa prisão tinha sido atacada por guerrilheiros iraquianos com morteiros. Desse ataque resultaram 6 mortos-todos iraquianos- e 59 feridos.
Eu não sei se vocês já viram um morteiro em acção; mas se já viram sabem, com certeza, os estragos que aquela coisa faz.
Dá-se o caso de -em praticamente todo o lado em Bagdad (e um pouco por todo o país)- se viver-por parte das forças da coligação -um clima de medo. Um medo normal já que, como se sabe, em todas as esquinas espreita o perigo. Há morteiros apontados em várias frentes e outras armas.
De maneira que os soldados anglo-norte-americanos ( sim, quase todos demasiado novos e inexperientes ) , patrulham as ruas e os edifícios com o medo à flor -da-pele. É natural. São homens e não é porque são soldados que são super-heróis.
Ora, a prisão tinha sido atacada; nas ruas havia uma confusão total e, de repente, os soldados que conduziam um dos tanques vêem , ao longe, algo apontado a eles. Era uma câmara. Mas os soldados viram um morteiro. Erro deles; crasso. Trágico.
Mas compreensível. ( Mas, repito, não desculpável)

Eu sou -mais do que jornalista-repórter.Não sou soldado. Mas sei que , em palcos de guerra, há perigo. Eminente.
E quando um repórter vai em serviço para um desses locais , não está à espera que lhe ofereçam flores.
Se há balas pelo ar, as balas não escolhem as vítimas pela profissão.
Ele, tal como outros 13 repórteres, sabia o perigo que corria. E ele, tal como todos os jornalistas que estão, ou se deslocam, ao Iraque, sabia que estava sujeito a ser alvejado. Todos os jornalistas recebem instrucções sobre a segurança, os cuidados a ter.A todos é explicado o perigo de as câmaras poderem ser confundidas com armas. Até porque os casos são muitos , mesmo no Iraque. Todos , os jornalistas, devem andar -avisam-nos- identificados o mais possível. Para evitar incidentes trágicos. Dizemos todos que sim mas, depois, esquecemos a nossa segurança . E , se se trata de profissionais destemidos, como o era Mazen Dana, assumem o risco e dão prioridade à informação, ou seja, metem-se na boca do lobo. Foi o que Dana fez. E correu mal.
[Os repórteres de imagem são, grosso modo, os mais atingidos por estes trágicos enganos. Porque estão mais expostos , porque, normalmente, se arriscam mais. E porque trazem câmaras às costas.]

O que me choca é isto:
Insinuar-se que foi um ataque deliberado, ou seja, contra os jornalistas, é estúpido e injusto.
Mais: insinuar-como eu já li e ouvi- que o jornalista palestiniano foi morto por isso mesmo, ou seja, por ser palestiniano é, não só revoltante , mas também nojento e ignóbil.
O aproveitamento político que o caso está-em certos meios- a ter , faz-me lamentar , mais uma vez, a falta de seriedade de muitos colegas de profissão.

Mazen Dana ( que D-us o tenha no céu e em paz ) foi morto porque como bom profissional que era , colocou o seu medo atrás do seu amor à profissão. E foi à boca do lobo filmar. E por um ,trágico engano, morto.
Reparem que os colegas jornalistas que estavam próximos não foram atingidos. Ele foi porque, aos olhos dos soldados , também eles com medo, ele estava armado. Com um morteiro. Trágico. Mil vezes trágico. Mas compreensível.( Repito,mais uma vez, mas não desculpável.)

Não se trata de desculpas e peço-vos a fineza de não fazerem leituras deturpadas do que estou a tentar dizer, com, reconheço, alguma emoção.
Também sou algo corporativista . Também grito :«assassinos»! , quando vejo colegas de profissão tombar. ( Infelizmente já vi bastantes.)
Mas não posso fechar os olhos à lógica . Porque estive lá ( e em outros palcos semelhantes ) e sei como é que o medo nos turva a vista.A todos.

É normal a atitude da agência Reuters . Um inquérito completo e detalhado é o mínimo que se pode exigir.
E, sim, os soldados que o mataram devem ser castigados.
Mas isso não nos pode fazer esquecer as circunstâncias . Não, não se trata de desculpar.
Muito menos de entender no sentido restrito da palavra.
Trata-se de ver as coisas como elas são.
Sei o que é andar a trabalhar com o medo de não chegar vivo ao fim do dia. E Dana também sabia.E os soldados , e os civis também.
Nesse ponto soldados, jornalistas e a população em geral, estão em pé de igualdade. Não há heróis. Apenas seres humanos.

Não me estou a conseguir explicar muito bem; acho que o que queria realmente dizer, é que me irrita o aproveitamento que se faz da morte de jornalistas quando dá jeito.
Por uma questão de respeito, acho que Mazen Dana merecia mais.

E acho lamentável que -fora da associações profissionais que têm a obrigação de se revoltarem e exigirem explicações - indivíduos , de qualquer país, utilizem a morte de um profissional -que sabe ao que vai, para alimentar polémicas perversas e demagógicas.

E já cá volto com assuntos mais levezinhos.

Ana [8/19/2003 11:54:00 da manhã]