Crónicas Matinais

[ quinta-feira, agosto 07, 2003 ]

 

Diz-se que as crianças são o futuro. Óptima máxima.
Pena é que não se possa aplicar à letra, i.e., que o futuro não seja mesmo futuro(portanto afastado)...e sim presente!
Passo a explicar.

Eu adoro crianças.Mesmo sem ter esse tão famoso "instinto maternal" ,apesar de já ter ultrapassado a barreira pssicológica dos 30 anos , gosto delas.
Mas não de todas. E muito menos de todas...ao mesmo tempo!
Adoro o meu sobrinho novo, e os outros emprestados; adoro os filhos dos meus amigos; adoro-os a todos; e adoro aquelas crianças que dormem bem, sem chatear e gritar por-dá-cá-aquela-palha.

Quis o destino -e a minha sorte- que as crianças também não desgostassem de mim. E isto significa que , em havendo crianças por perto, algo nos juntará.
E junta sempre. Tipo hoje.
Entrei ( depois de dormir 4 horas ) na minha chafarica ;e o que me dizem? Ana, hoje temos uma visita de estudo. Pê cês. ( código -jornalístico- para...cof. cof...p***s das criancinhas. )
Fiquei que nem um semáforo : estava vermelha, do calor, e passei ao verde de náusea ; mas não sem antes ter ficado amarela ...de raiva.
Logo hoje, bolas!
Revirei os olhos; disse meia dúzia de boas palavras portuguesas, à moda do Porto; respirei,como quem grunhe e, resignada, fiz como o outro : abri os braços e disse: Deixai vir a mim as criancinhas!

E, snif, elas vieram.
27 crianças. Entre os 6 e os 12 anos. Mais duas educadoras. E o motorista da carreira que os trouxe , também -tipo lapa- se juntou à visita.
30 alminhas e eu só a pensar em dormir.
Mal chegaram as criaturas ( vá, criaturas de D-us, não sou assim tão má!) eu -que sou a chefe- fui barbaramente abandonada pelos meus colegas que-como ratos- se escapuliram para todos os buracos disponíveis .
Visão dantesca. Cenário infernal.
As criaturas riam, pulavam, gritavam, babavam-se. Eu sei lá.
Aquilo é cinco-reis-de-gente capaz de demolir a mais forte muralha só com as gargantinhas.

E o que lhes dizer? Os segredos da profissão? Como funcionam as maquinetas tipo o telefone satélite que vou levar amanhã para o Iraque, por exemplo?
As pressões e as tentativas de suborno?

Comecei por lhes falar do tempo, claro! E de como num dia tão bonito como hoje, elas deviam era estar era na praia, ou no campo,(ou no raio que as parta)...mas ao ar livre!
Que sim, que sim. Depois vão, mas para já querem visitar a rádio e a televisão.
E eu mostrei o que pude.

Devo dizer que durante toda a visita, tinha sempre umas 10 crianças agarradas a mim.Mas agarradas literalmente. E sempre a perguntar coisas. " E o que é isto?" ;"E para que serve?" ; " E como é que te chamas?"; " E que idade tens?" ; " E porque é que está aqui tanto calor?"; " E tens filhos?" ; " E não há cá bolachas e coca-cola?" ; "E não nos vais dar um presente? "; " E porque é que tens óculos?"..." E...

E porque é que eu mereço semelhante castigo? E porque é que as criancinhas são autorizadas a sair de casa em bando, e não somente na companhia dos pais, como deveria ser?
E porque é que me dói tanto a cabeça? E porque é que estou a olhar com tanta atenção para o pescoço daquela criança, ali, ao fundo, que está a cuspir nas plantas? E porque é que é crime açaimar seres humanos?
Eram basicamente estas as perguntas que eu fazia enquanto me perguntavam todas as outras já citadas.

Suava em bica. Tremia e -a km- ouvia-se os meus dentes a ranger. Mas, estóica como só eu, aguentei até ao fim a tortura.
( Confesso que, à traição, dei um pontapé nas canelas de uma miúda que ia tirando macacos do nariz e os ia colando onde calhava ; e também dei um calduço( foi um reflexo condicionado, não pude evitar) num puto estúpido que me riscou a capa de um livro que eu tinha em cima da minha secretária . )

Já perto da saída, o momento mais trágico. A destribuição dos "presentes" habituais. Qual político em campanha mercantil, cá em casa oferecemos bonés e canetas aos putos. Aventais e sacos de plástico , pedimos desculpa, mas não temos.
Pensei que fosse fácil pôr, literalmente, os putos a apanhar bonés. Mas enganei-me.
Gritaria de meia-noite, chapadonas uns nos outros, puxões de cabelos, etc. ( Sim, sim, as crianças são anjinhos...e então umas com as outras...é a solidariedade no seu melhor não haja dúvida...)

Só que depois quiseram agradecer!
Diz uma das educadoras ( sado-maso com certeza) : "Vá, dêem um beijinho à senhora! e digam merci!
Ia morrendo.
Fui lambuzada por 27 criaturas suadas, peganhentas, mal-cheirosas! E, de brinde, tive de beijar também as duas educadoras! ( Ao motorista dei um desanimado aperto de mão.)

Estais a rir? cuidais que foi pouco o sofrimento? Pois então lembrem-se que, cá na Gaulia , cada criatura dá quatro beijinhos!!!
Até o António Guterres percebe que 4 X29 ...viola vários artigos da convenção de Genebra, carago!





Ana [8/07/2003 03:35:00 da tarde]