Crónicas Matinais

[ sexta-feira, agosto 08, 2003 ]

 

Eu sei.
O tempo é de férias. Sopas (frias) e descanso. E de assuntos levezinhos e frescos.
Mas como me vou ausentar ( viagem de trabalho ao novo Iraque) , e como -apesar de me esforçar muito- não consigo deixar de pensar nas desculpas do jornal "Público" ; e porque o Aviz tem, como sempre, toda a razão. E me faz ter a coragem de falar sobre o que quero falar, sem ter de me justificar; resolvi deixar sair,mais uma vez, o que me vai na alma.

E o que me vai na alma é, neste caso, um assunto muito sério: O Negacionismo.
E o Negacionismo é um termo que vários historiadores e sociólogos começaram a utilizar desde 1987.
O termo designa-depois de Paul Rassinier- todos os que negam a existência das câmaras de gás nos campos de concentração nazis.
É um fenómeno considerado singular. É uma forma-como há tantas outras- de antisemitismo.
Mas, e isto é importante, não deve ser sempre confundido com o Revisionismo histórico.
E não deve porque é muito pior. Muito mais grave.

Há vários livros- todos fundamentais- sobre este assunto tão negro.Tão dorido.
Assim como há revistas, artigos de jornais; documentários televisivos e até cinematográficos.
Mas vou sugerir,especialmente,livros.

O principal ( na minha opinião) é este : F.Brayard, Comment L'idée vint à M.Rassinier.Naissance du Revisionnisme; prefácio de P.Vidal-Naquet, Paris, Fayard,1996.
[Este livro é, de resto, a única biografia ,documentada ,sobre Paul Rassinier]

E mais:
A.Finkielkraut,L'avenir d'une négation.Réflexion sur la question du génocide, Paris, Le Seuil, 1982.

D. Lipstadt, Denying the Holocaust. The Growing Assault on Truth and Memory, New York , Plume,1994.

Na Les Temps modernes, há também dois textos fundamentais :
-N.Fresco - "Les Redresseurs de morts", Junho 1980. [ N.Fresco foi, com Pierre Vidal- Naquet, um dos primeiros a desmontar os mecanismos do negacionismo.)
- P.-A. Taguieff, " La nouvelle judéophobie.Antisionisme, Antiracisme , Anti-Impérialisme", Novembro 1989.

P.Vidal-Naquet, "Un Eichmann de papier", Esprit,1980. ( Republicado, mais tarde, em Les Assassins de la mémoire, Paris, La Découverte, 1987.

Bom, são vários os autores , historiadores , sociólogos e jornalistas que estudaram, e estudam, o Negacionismo e, grosso modo o nazismo .
Para além dos já citados, tenho de referir , obrigatoriamente, também L. Poliakov; J.-J.Heydecker; o enorme Henry Rousso; e a maravilhosa Annete Wieviorka.
Sim, faltam muitos, nomeadamente uma boa dezena
de norte-americanos, mas estes são os que me estão mais próximos. Literalmente.

Muitos dos textos principais , ou as ideias principais, destas- e de outras- personalidades estão disponíveis on-line. E, penso eu, é uma boa maneira de aprofundar um assunto que-todos o sabem - é cada vez mais actual.Porque, lá está, a história repete-se. Sempre.

Uma vez, numa conversa à qual tive o privilégio de assistir, Henry Rousso [Entre outras obras, H.R. publicou o memorável " Le Syndrome de Vichy, 1944-1987" (Le Seuil,1987;1990) ; " Vichy, un paseé qui ne passe pas"-escrito em colaboração com Éric Conan- (Fayard, 1994; Gallimard,1996) e também " La Hantisse du paseé.Entretien avec Philippe Petit (Textuel,1998) ] , presidente do Institut d'histoire du temps présent, lembrava os que o ouviam que, curiosamente , depois de 1945 , nenhum responsável pela solução final , teve a audácia de negar os factos; fosse durante o processo , fosse em testemunhos escritos ou orais não oficiais. Nunca o negaram. E, dizia H.R., não negavam porque fazê-lo depois da queda e derrota do Reich , e de tantas e tantas provas, isso seria inutil. E curiosa e paradoxalmente , foi em França que apareceu uma "escola" que se autoproclamou de revisionista.
Surgiu assim, como protagonista , essa figura tortuosa -Paul Rassinier- o pai espiritual de Robert Faurisson e consortes.[ Consortes de vários países e onde se inclui o tal senhor pedro almeida.]
Para além de ouvir, ao vivo, H.R., trago comigo -sempre- um dos muitos artigos que ele escreveu a propósito. É esse artigo que me inspira-(cito-o ) a escrita que se segue:

Rassinier , que aderiu ao partido comunista em 1922, é expulso do partido dez anos mais tarde por -juro que é verdade- Gauchisme.Depressa se alia aos socialistas do SFIO.
Em 38 está na extrema-esquerda do SFIO e em 1939-1940 demarca-se ( é mesmo verdade) do regime colaboracionista de Vichy.
Rassinier participou até num movimento de resistência , fundado numa zona ocupada ( no norte) pelos nazistas alemães.
A Gestapo prende-o em 1943 , torura-o e deporta-o. Primeiro é levado para Buchenwald e depois para Dora. Ambos campos de trabalhos forçados e de concentração. Mas não, de facto, de extermínio.
E é isso que o faz -apesar de inválido- sair vivo desses campos.
Depois da guerra , Rassinier volta à vida política mas sem qualquer êxito e decide, por isso abandonar a política.
Dedica-se então a escrever. Escreve uma série de -como chamar-lhes?- coisas, uma série de coisas onde diz denunciar " Les monsonges de la littérature concentrationnaire."
E depois vai por aí fora. Escreve livros a negar testemunhos de sobreviventes , baseando-se sempre na sua própria experiência em Buchenwald e Dora. ( Recordo que não eram campos de extermínio , porque não eram destinados maioritariamente a Judeus.)
Levanta polémicas; desmente oficiais alemães que confessam tudo; acusa os comunistas de serem os responsáveis pela "prática de selecção" nos campos e -finalmente- instala a dúvida sobre a existência das câmaras de gás. Sempre baseando-se na sua própria experiência.

Expulso do partido socialista , o SFIO, passa a ser idolatrado pela extrema direita, que o recebe de braços abertos. E vice-versa.
Louco, fica louco, paranóico mas -infelizmente- fundou a escola. Que se ramificou.

Vinte anos mais tarde, e ainda em França, por causa dos delírios de Rassinier , aparece essa figura sinistra -Robert Faurisson- que afirma com todas as letras , e passo a citar : les chambres à gaz et le génocide sont un mythe forgé par les vainqueurs alliés et par la propagande sioniste.. E reafirma o que afirmou Rassinier: que o Holocausto é , e volto a citar: La plus tragique e la plus macabre imposture de tous les temps..

O que fazer? O que dizer, meu D-us?
E depois pensar nesses Adolf Eichmann da história. Nesses Maurice Papon; nesses Paul Touvier; nesses Klaus Barbie do mundo; esses pedro almeida .

Como se pode negar o inegável?Como?
Democracia e liberdade de expressão...bah!

E porque é que eu não consigo dormir bem, todas as noites ? Será porque tenho memória? Ou porque tenho medo?
Ou porque sei que a história se repete?
Enfim.

Até daqui a uns dias.









Ana [8/08/2003 01:41:00 da tarde]