Crónicas Matinais

[ segunda-feira, agosto 04, 2003 ]

 

Leio, escrito pelo Francisco José Viegas:

LATE NIGHT BLOGS. Às vezes, e isso não é só por causa do calor,
escreve-se
mais. Há vento, finalmente, a esta hora. Eduardo Prado Coelho escrevia
recentemente sobre os blogs, no Público, acentuando o seu (dos blogs)
lado
mais libertino. Para Eduardo, há um problema a ter em conta, o de
muitos dos
bloggers «se sentirem autorizados a escreverem» sobre o que quer que
seja.
Não sei se isso é mau. Antigamente, antes de poder escrever «uma
opinião»
era preciso passar por uma série de rituais, etapas, trabalhos,
sanções,
ajustes, aprendizagens públicas, etc. Mas tratava-se da imprensa, onde
deve
existir essa série de exames e de admissões; não de blogs. Os bloggers
escrevem. Muitos deles (ao contrário das preocupações que o Eduardo
anota)
nem sequer se preocupam em ser conhecidos ou em mostrar o seu nome.
Pelo
contrário: há na revelação do nome (em casos como o de Pacheco Pereira,
Bragança de Miranda, etc.) o reconhecimento de uma proximidade com
autores
anónimos que escrevem porque escrevem e porque ninguém pode impedi-los,
nem
a moral nem os sacerdotes (apenas nós podemos não lê-los). Que escrevem
porque estão acordados a meio da noite e escrevem com e sem esperança,
com
insónia ou com medo, com preocupação ou à medida que assumem o direito
a
serem humanos, inteiramente humanos. Ter nome ou não ter nome é ‹
tirando
essa revelação de humanidade ‹ um assunto sem interesse. Nem sei se é
moda,
isto dos blogs. Nem me interessa. Dura enquanto durar. De vez em
quando, a
meio da noite, no meio das insónias, penso em não voltar ‹ porque cada
palavra que se deixa no blog é um recado. E, quando não é um recado,
pode
ser lida como um recado. E porque há desânimos inexplicáveis, tal como

entusiasmos adolescentes. E porque vamos envelhecendo e a energia varia
consoante o que se já se escreveu, o que já se leu, o que vamos
adivinhando
no mundo das previsibilidades. Dura enquanto durar. Depois acaba, como
tudo.
Mesmo se este Verão for aquele ‹ para retomar a crónica de EPC ‹ que
mais
tarde retomaremos com aquela pergunta: «Lembras-te daquele Verão em que
se
falava muito de blogs?» E se for assim? E se um milhar de portugueses
tiver
descoberto neste Verão ‹ mesmo que seja só neste Verão ‹ o prazer
adolescente de escrever, de dizer, de mostrar uma frase, de deixar um
recado? E se for assim, onde está o pecado? Teremos de transportar
connosco
a mágoa da eternidade?
Aliás: não é preferível recuperar a adolescência de vez em quando a
seguir o
curso daquele envelhecimento inevitável que nos torna mais impacientes,
casmurros, cínicos? Por isso, dura enquanto durar, escreve-se todos os
dias
ou só de vez em quando, escreve-se sobre livros ou sobre o amor
perdido,
sobre música ou o amor reencontrado, deixa-se uma citação de que se
gosta ou
uma citação que se finge conhecer de há muito. Não é isso mais saudável
do
que tentar enganar a eternidade fingindo que só se escreve para a
eternidade?
E outro pormenor: a preocupação com a audiência. Não deve isso ser um
critério flutuante? Há quem goste do «sitemeter» e quem recuse (como
eu). Há
quem aceite comentários livres e quem não queira. É isso tão
determinante? E
é assim tão grave se andarmos aqui a escrever uns para os outros, na
«blogosfera», essa «ondulação estival»? Para quem se há-de escrever?
Para
quem cá anda, para quem aparece, para quem pisca o olho e diz «ontem li
o
teu texto» ou para quem vem às escondidas, para quem telefona, para
quem se
importa. «Escrevem uns para os outros.» Não me lixem. Claro que
escrevemos
uns para os outros. Claro que escrevemos para os outros. E, dado que o
mundo
é como é, escreve-se sobre política, sobre incêndios florestais, sobre
Salinger, sobre música, sobre comida, sobre charutos, sobre o que
passa,
sobre os outros.


E está lá tudo.

Ana [8/04/2003 02:04:00 da tarde]