Crónicas Matinais

[ sexta-feira, agosto 29, 2003 ]

 

Podia falar-vos das minhas doenças e de como passei as últimas horas a ser picada nos dedos por causa da minha diabetes. Mas não me apetece.

Apetece-me contar-vos- repartir, uma estória que já se passou há uns anos e cuja protagonista é uma das minhas melhores amigas .
Ontem, para me distrair-e à falta de pachorra para contar carneirinhos , depois da terceira vez que me acordaram com a agulha nos dedos, lembrei-me desta estória. Aqui a conto, com título e tudo:

Estória de O.

A minha amiga Olga ( please, nada de piadinhas , ou perguntas como : o dinheiro, ou as chaves? ) é uma porreiraça. Sempre a rir; sempre muito gira e fresca; sempre com muito savoir faire...e bruta como as casas para com quem considera idiota ou estúpido.
Um dia, em Março de 1997, salvo erro, fomos ambas convidadas para um fim de semana campestre, em casa de um amigo comum, inglês , numa propriedade lindíssima nos arredores de Londres.
Chegamos numa sexta-feira à tarde, todas muito bem vestidas ,em tons terra, tão tipicamente ingleses; com chapelinhos com penas comme il faut , que aquilo ia ter uma caçada e tudo.
De maneira que chegámos lá, fomos apresentadas aos pais desse amigo e aos restantes convidados.
Apesar da Olga ser uma "terrorista cultural" em fim de carreira, uma revolucionária sem Che, ela pela-se por estes fins-de-semana conservadores e elegantes.
Muito mais do que eu ,que os papo desde menina e moça.
Fomos instaladas na mesma ala, no mesmo quarto. E quando chegámos ao quarto, a Olga confessa-me que, lamentavelmente, sentia os seus intestinos revoltos.
Não há-de ser nada-digo-lhe eu que ando sempre com uma mini-farmácia atrás de mim. Abro a malinha da cruz vermelha, tipo o saquito do Sport Billy, e dou-lhe dois comprimidos para a diarreia .
Ela toma-os e pronto. Assunto momentaneamente encerrado.
Fomos passear pelos bosques a cavalo; respirar os ares do campo e conviver com os restantes convivas . Eu, sempre que me lembrava dos intestinos da Olga, olhava para ela, e, apontando para a barriga, perguntava com os olhos se estava tudo bem; ela respondia que sim, toda sorridente e corada, levantando os polegares.
A noite tombou, comemos como lapões, e, depois de um passeio ao luar ( quer dizer, luar, luar não havia, mas fica aqui muito bem na descrição ) fomos fazer xixi para depois cama.
E dormimos como justas. Ela pelo menos dormiu...eu, confesso, fui acordada duas vezes pelo barulho , enfim, nojento, dos intestinos dela a expelirem gás...cof, cof...e tóxico!
Mas de manhã, claro, não lhe disse nada.
Eu ficava aqui , agora, mais uns 3500 caracteres, a contar-vos tudo sobre o dia de Sábado, sobre esse meu Shabat alternativo, mas se calhar é melhor encurtar a história.
De maneira que, de repente, já era Sábado à noite e , depois do jantar, fomos todos para os quartos , para nos prepararmos para sair. Iamos a um " baile" rural, ali nas imediações.
Eu fui primas, à casa-de-banho; e a Olga seria sigas, se os intestinos dela não tivessem uma personalidade demasiado forte...
A Olga começa a bater-me à porta, aos murros, a pedir para entrar e eu, apanhada com as calças na mão, a dizer que não; que não saía, ela que esperasse ...
A Olga fez tamanho chinfrim, que o Simon , o nosso anfitrião, foi ver ao nosso quarto, o que se passava . Nós estávamos a duas portas do quarto dele, de maneira que depois da Olga, armada em varina, lhe ter dito que precisava de se aliviar rapidamente e que eu não saia da casa-de-banho, o Simon , cavalheiro, ofereceu-lhe a sua casa-de-banho, a do seu quarto, para ela se aliviar.
Eu, juro, estava roxinha de vergonha dentro da casa-de-banho, a ouvir a conversa...
Ela lá foi. Lá se aliviou.
Mas, curiosamente, voltou algo misteriosa e calada. Como já estávamos atrasadas e todos esperavam por nós, descemos a correr. Estranhei, no entanto, ter de empurrar a Olga , porque ela cismava que precisava de ir ao quarto guardar qualquer coisa.
Afinei, e mandei-a guardar a coisa , fosse lá o que fosse, na carteira , porque era uma enormíssima falta de educação fazer esperar as pessoas.
Bom, descemos e fomos metidas num carro , rumo ao "baile" rural.
Poupo-vos a descrição do baile, apenas digo que, das várias vezes que me cheguei mais para a beira da Olga-que não largava a carteirinha- sentia um cheiro estranho e desagradável...
Mas, pensei eu, era coisas do meu nariz que é muito esquisito com cheiros.
Bailamos e rimos , comemos e bebemos e lá para as 5 da manhã voltamos ao lar.
Dormimos mal chegámos ao quarto e a Olga, de tão cansada que estava , lá largou a carteira; em cima da cómoda.
Do dia seguinte, Domingo, tomámos um lauto pequeno almoço, demos um ultimo passeio pela propriedade e, depois de comer algo leve, fomos conduzidas ao aeroporto.
A Olga, que é mesmo uma querida, estava muito mais descontraida. Tanto que se fartou de me contar coisas engraçadas até mesmo à hora de entrarmos na manga que nos levava ao avião...nisto, estávamos já com um pé dentro do aparelho voador que imita um pássaro natural ( já agora, é isto que significa a palavra avião, mas em francês, já que a invenção é deles...), eu pergunto à Olga: «olha lá, afinal o que é que tu tinhas ontem assim tão importante para guardar, e que meteste na carteira, e que te deixou quase histérica?»
A mulher fica-me branca, depois escarlate, começa a suar e a olhar para a carteira com os olhos esbugalhados...e eu tenho de a empurrar até aos nossos lugares . Já sentadas, ofereço-lhe os meus dois ombros e peço para que ela possa desabafar. E ela então conta-me tudo:

Depois de ter tomado os dois comprimidos para a diarreia, os instestinos dela começaram a solidificar as coisas que eles lá acham por bem solidificar...de maneira que, no Sábado, aquando daquela necessidade urgente de ir à casa-de-banho, ela foi-se aliviar à casa-de-banho do Simon e, por azar, os instestinos dela decidem expelir , não gases, mas dois pedaços , bastante sólidos, daquilo que eles acham por bem expelir...e...quando ela puxa o autoclismo , a água -qual luta de David contra Golias- não tem força suficiente para fazer descer os dois pedaços ...e só leva um para o cemitério das fezes.O outro, mais resistente, ficou lá a boiar, dentro da sanita imaculada do Simon...
E, ó desgraça das desgraças, o autoclismo levava muito tempo para voltar a encher-se de água, de maneira que foi preciso pôr a imaginação a trabalhar.
A Olga, então, lembra-se de enrolar "aquilo" em papel higiénico; mas como não podia deixar o "presente" no caixote do lixo da casa-de-banho do Simon, resolveu levá-lo para o nosso quarto e deitá-lo fora.
Só que a pidesca Ana, eu, não a deixa sozinha e empurra-a para a saída, porque é feio fazer esperar as pessoas; e a Olga, coitadita, meteu o "embrulho" na carteirita...
Claro que, depois, não se voltou a lembrar disso!
Como não precisou de nada que estava dentro da carteira, não foi lá e, portanto, o " presente" lá estava. A desfazer-se e a empestar o ar.

Só vos digo que passámos o voo todo a olhar para a carteira da Olga ; como se se tratasse de uma bomba relógio; a apertar os narizes ( este efeito, penso eu, mais psicológico que outra coisa) e a rezar para chegar depressa a ares mais livres.

A estória podia acabar aqui...caso o papel higiénico não fosse um material muito pouco resistente...e o sólido conteúdo não se tivesse libertado dessas amarras...e tivesse ido conviver com todas as coisas que estavam na carteira da Olga...

Graças a D-us , eu tinha insistido em ficar com , não só os bilhetes de avião, mas com o passaporte da Olga, porque se não...




Ana [8/29/2003 01:32:00 da tarde]