Crónicas Matinais

[ quarta-feira, agosto 06, 2003 ]

 

Quero dizer tantas coisas que nem sei como começar.
Talvez pelo princípio. ( Que original.)
E no princípio era o verbo. O verbo enraivecer.

Leio, no Aviz, dois textos - Abjecto e O Público Errou.
Começo por este último.
O Jornal Público errou sim. Para mim errou de forma definitiva.
Desde a publicação dos tais "artigos" sobre o Holocausto, desse tal senhor pedro almeida, nunca mais li esse jornal.
Exagerada, eu? se calhar. Mas para grandes males, grandes remédios.
Agora o Público pede desculpa. Expia-se. Fica-lhe bem.
Mas, para mim, não muda nada. As desculpas - a este nível - não se pedem; evitam-se.

No Abjecto, Francisco José Viegas partilha connosco o conteúdo de dois e-mails que recebeu a propósito da mesma temática. Abjectos; sim.
O F.J.V. diz que " De vez em quando interrogo-me sobre estas coisas: a ignorância, a maldade pura, brutal, aviltante." . Pois.
Pois eu adoraria poder escrever este De vez em quando. Porque eu interrogo-me todos os dias. Mesmo não tendo qualquer tipo de esperança na humanidade.

E gostaria de dizer uma coisa:
Também eu já recebi e-mails a dizer enormidades semelhantes.
Em todos esses e-mails percebo uma irracionalidade e um ódio que nunca vou conseguir perceber e muito menos perdoar.
É como se os judeus não pudessem falar desta sua condição -de que se orgulham- com naturalidade! É como se o dizer-se que se é judeu fosse proibido.
Como se sempre que um de nós fala de Judaísmo, de Sionismo, de Eratz Israel, da Tora, do Talmude, do Menorah, da Estrela da David, do Chai, da Mão de Hamesh - que digo eu!- falar e não só!- usar esses símbolos também- estivéssemos a ofender alguém!

Muitos nos acusam de "nos defendermos uns aos outros " como se isso fosse crime; muitos nos acusam de sermos -porque a mesquinha e lendária ( sim, de lenda )"tradição histórica "assim o ditou- traidores; materialistas; usurpadores e somíticos; e dizem-no cheios de arrogância,de sobranceria .
E, sim, muitos acham que o asqueroso austro-alemão com o bigodinho ridículo e lustroso é um heroi.
E muitos- mesmo nossos amigos- acham melhor não falarmos da nossa herança judaíca porque podemos ter "problemas".
"Problemas"?
Como se pode aceitar que se tenha "problemas" porque se diz que se é Judeu?
Como se pode aceitar frases do tipo : -ah, é judia? quem diria! não parece nada! - como se os judeus fossem bichinhos; diferentes dos demais homens e mulheres !!!

Nunca aceitarei esconder as minhas raízes. A minha crença. Nunca aceitarei que se justifiquem perseguições com a dita cuja "tradição histórica". Nunca aceitarei ter de me justificar pelo que sou e pelo que defendo.
Nunca deixarei que me justifiquem esses comportamentos racistas e preconceituosos com argumentos de trazer-por-casa.
Nunca.

Nunca aceitarei ser criptojudaica . E nunca aceitarei quem o aceita.

E mais: não se trata só de religião. Muito menos da noção de " Povo Escolhido" -que muitos, muitos judeus rejeitam até.
Trata-se - e aqui sim- de uma tradição histórica e cultural . De uma forma de estar, de pensar, de ver o mundo e de o sentir e fazer evoluir.
Não tem de ser melhor nem pior. Apenas diferente.

Mas as diferenças não têm -se forem saudáveis, democráticas e sinceras, como é, de resto, o caso- de ser motivo de separação.

Nos nossos dias não se podem justificar separações religiosas . E, sim, admito e reconheço todos os exageros dos Ultra-Ortodoxos judeus.

Mas, e descendo o nível, há loucos em todo o lado e em todas as religiões ;e partidos políticos.

Mas o que me enraivece mais; o que me deixa contristada , é a falta de liberdade que sinto quando, por exemplo, visto a minha t-shirt com a bandeira de Israel estampada. Quando uso uma t-shirt com a bandeira norte-americana, ou a bandeira britânica, ou a portuguesa ou outra qualquer -até com uma turca já andei- , ninguém me diz nada. É uma moda.Mesmo T-Shirts com a Virgem Maria, crucifixos vários, budas, etc, são encaradas -e como deve ser!- como de uso normal.
Mas quando visto a minha t-shirt com a Estrela de David, ou olham para mim de esguelha , ou agridem-me verbalmente; mas não só. Já me cuspiram e até me deram uns "chega-para-lá".

Tem alguma justificação? Tem?
E o que me doí é que , depois, dizem-me : -Ana, tens de entender; esse símbolo pode ser encarado como provocação.

Provocação? Entender?
NUNCA

Desculpem os desabafos mas tinham de sair.

Shalom




Ana [8/06/2003 11:34:00 da manhã]