Crónicas Matinais

[ terça-feira, agosto 26, 2003 ]

 

«Uma virtuosa dona de boa vida tinha uma filha de tão má inclinação que não queria tomar os nobres conselhos da mãe, nem a aprender seus louvados costumes; mas em tudo seguia seu próprio parecer, sem obediência de pessoa alguma, nem correição de vizinha, nem parenta, porque era preguiçosa, gulosa, andeja, muito faladeira e de outras feias manhas. A mãe, como mãe desejosa de seu bem, e de lhe dar marido antes que aqueles viços a levassem a torpe pecado, determinou dar a um mancebo tudo o que a pobre velha tinha porque casasse com a filha, tendo para si que o marido lhe faria fazer, com castigo, o que ela não podia com ensino, repreensões e exemplos. E, concertada com ele no dote, quis o mancebo que não dessem conta à moça até que ele a fosse ver, o dia seguinte, seguindo o conselho do rifão que diz: Antes que cases olha o que fazes.

Foi a velha contente e disse que assim faria. Porém, porque a filha estivesse sobreaviso e não caísse em alguma fraqueza a tal tempo, crendo que, para casar, tomaria seu conselho, lhe descobriu aquela noite tudo o que passava, dizendo-lhe:

– Filha, toda tua vida seguiste tua opinião, sem querer entender meus conselhos. Agora te rogo que, este dia, me oiças e aceites o que te disser.

E, com discretas palavras, lhe admoestou que o dia seguinte não se erguesse de um lugar, que sempre estivesse calada, fiando, ou, ao menos, com a toca na cinta, porque, pois o futuro marido a queria ver, a achasse quieta e ocupada em virtuoso exercício, coisa que as moças sempre deviam de fazer, porque a inquietação e a ociosidade nelas, comummente as leva a mui perigosos pensamentos, contrários da virtude, boa fama e honesta vida. E, para mais ajuda, a velha, aquele serão, quase até meia noite e, pela manhã, pôs-lhe à filha uma grande rocada na cinta e deixou-lhe as maçarocas que fiara no regaço. Fê-la assentar, tal que à vista dos olhos a quem a não conhecera, parecia uma diligente fiandeira, quase uma das Parcas que fiam a vida. Porém, como aquele não era seu costume, tanto que a mãe desceu à porta (porque havia de esperar ali o mancebo), a moça deixou a roca e, com diligência, fez lume e nele uma honesta tigela de papas. E porque se esfriassem, prestes as lançou em cinco ou seis escudelas que logo chegou derredor de si e, soprando e fervendo, estava a pobre moça mui apressada por acabar sua obra, antes de ser sentida. A este tempo chegou o mancebo à porta e, ainda que o viu a velha, pelo que tinham concertado, não se falaram, mas ele subiu manso, por ver em que se ocupava a que ele queria receber por mulher. E a velha o deixou ir, tendo para si, acharia a filha, ao menos com a roca na cinta, como a deixara. Mas, ainda que ele subiu dez ou doze degraus da escada, ela, de ocupada, não no sentiu, nem posto que meteu a cabeça em casa o não viu. Mas ela foi dele muito bem vista e, notando o ofício em que estava, disse entre si:

– Nunca nos faremos boa matalutagem porque, quem tanto e com tal pressa madruga a comer, pouco prol pode fazer. Não é esta a que me arma.

E, sem falar, se desceu. E a velha, vendo-o vir tão prestes, lhe perguntou:

– Que vos parece, filho, que cuidado de moça?

E querendo-lha gabar, porque imaginava que estaria fiando e mais, com a roca cheia, lhe disse:

– Viste a pressa que tinha e a habilidade de suas mãos e o que já tinha despachado? Pois eu vos prometo que daquelas enche e vaza sete no dia.

Querendo a velha dizer as rocadas da roca, mas o mancebo, sem descobrir o que lhe vira fazer, respondeu:

– Senhora, não me arma, que, se ela é tal, não na posso sustentar. E assim esteja em vossa casa e, se as vazar e encher tantas vezes, seja embora de vossa farinha e não já da minha.

E foi-se. A mãe, ouvindo isto, foi ver o por que o dissera e achou a filha como contámos e disse-lhe:

– Sem açúcar, filha, espera! Dar-te-ei um pequeno.

E com grande fúria, sem atentar o que fazia, que era grande pecado, tentada do demónio, tirou de uma boceta um pouco de solimão e polvorejou-lho por cima, que a moça comeu, crendo

que era açúcar, tão cega estava. Mas, antes de muito, com o ardor e angústias mortais, deu o espírito antes de dar fim à sua obra.

Este conto se escreveu para exemplo das filhas que sejam obedientes a suas mães e virtuosas.»



Gonçalo Fernandes Trancoso, Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, Lisboa, Passado Presente, 1988, pp. 15-21.



Ana [8/26/2003 05:54:00 da tarde]