Crónicas Matinais

[ segunda-feira, setembro 08, 2003 ]

 

Bom Dia!

Quando o nevoeiro envolve a cidade (as cidades todas) e a manhã está fresquinha e perfumada , sabe bem acordar.
Abrir os olhos, estender os braços para o céu; deixar entrar o ar em grandes doses. Inspirar, expirar…(Acender o primeiro cigarro…)
Tocar a pele, a nossa pele , cobri-la ( está muito frio!) com um edredão de penas leves a enroscar-nos o corpo…
Primeiro pôr um pé de fora; depois um braço. Manter a cabeça de fora , o nariz…respirar sempre…
Ficar assim indecisa…no quentinho. A cheirar o cheiro do sono. A descobrir os perfumes que nos entram pela nossa cama adentro. E, lá fora, o nevoeiro envolve tudo menos o chilrear dos pássaros.
E está dia claro, a noite já se acabou ; começa um dia novo: fresquinho (brrr), enublado , mas novo. Com aquela luz que só as manhãs de Setembro têm.
Já temos os dois pés de fora. Chão frio. Chinelos desaparecidos ( quem mexerá nos nossos chinelos durante a noite? Os duendes ? )
A pele que se arrepia; pele de galinha. E as penas, do edredão, que é preciso afastar…
Saem , portanto, as pernas primeiro; de repente estamos sentadas na cama, pés descalços no chão frio.
É preciso, a seguir, descobrir o tronco; os braços a largar o edredon que ensistem em abraçar.
A pele arrepia-se. E o ar entra-e traz os cheiros – e grava-se na nossa pele que, a pouco e pouco, volta ao normal.
Imagina-se água quentinha a correr no nosso corpo. H2O a substituir o pijama (que não é pijama ) docemente.
E aquele sabonete que nós gostamos, que preferimos a todos os outros, a desfazer-se em espuma; a lavar e a perfumar a nossa pele. Os recantos todos. O chuveiro aberto por cima , as mãos a lutar com a espuma …o vapor a transformar o espelho em reflexo do nevoeiro que vive lá fora…
É preciso sair do duche.
Primeiro as pernas; depois um braço…
O corpo a pingar , a cheirar a lavado –tranquilo e feliz. Uma toalha (não demasiado macia porque se não não limpa bem ) branquinha , também ela muito limpinha, a envolver-nos.
O cabelo a precisar de parar de chorar …e que enrolamos numa outra toalha branca e limpa.(Acender o segundo cigarro…)
O roupão que não aparece ( nunca aparece) e a toalha segue connosco para o espelho.
Limpar o espelho com a mão; limpar o reflexo do nevoeiro.
Olhar para as gotas de água que escorrem pela nossa pele. Pés ainda frios, mas longe do espelho.
O nosso rosto. Olhar para nós.
Sorrir.
Dizer bom dia…
Lavar os dentes e acrescentar mais um cheiro a quem nós somos nesta manhã.
Creme. Doses generosas na pele; toda.
Três gotinhas de perfume. Estratégicas.
Escova.( Nada de secador que queima o cabelo.)
Voltar a despir; a toalha.
Esconder a nudez em roupas lavadas.
Sair.
Enfrentar o nevoeiro e a frescura da manhã de Setembro.
E dizer bom dia…o dia inteiro.

Ana [9/08/2003 11:20:00 da manhã]