Crónicas Matinais

[ quarta-feira, setembro 24, 2003 ]

 

Há mitos, urbanos ou outros, que me tiram do sério.
É que um mentira muitas vezes repetida, e ao contrário do que se diz, nunca será verdade.

Estou para aqui com esta converseta, porque, mais uma vez, tive de levar com a já famosa frase : « é como o outro que inventou a guilhotina e morreu guilhotinado.». Treta!

E como eu sei que esta temática está no topo das vossas preocupações, meus queridos e queridas, cá estou eu para repor a verdade.

Vós haveis de saber, com certeza, e de cor e salteado, aquela linda prece revolucionária , muito rezada nos anos da vossa juventude , i.e., entre os anos de 1792 e 1794, e que reza assim : « Repleta o teu cesto divino com as cabeças dos tiranos.../ Santa Guilhotina , protectora dos patriotas,/ Rogai por nós./ Santa Guilhotina, calafrio dos aristocratas,/ Protegei-nos!» [ Isto até vai traduzido e tudo , por isso, façam a fineza de agradecer ...]

Ora bem, quem ouvir estas preces malvadas, há-de cuidar que a Guilhotina , essa máquina de mortes matadas, sempre foi pensada para ser cruel.
Pois estou cá eu para dizer que não! que isso não é verdade!

A guilhotina, coitada, e atentem nisto que eu não duro sempre, derivou do projecto de um médico; um médico muito humanitário: o doutor Joseph Ignace Guillotin. Que era um santo, não desfazendo.

Pois que esse santo homem,cientista respeitado , profissional de sucesso; um homem dedicado à causa pública, andava preocupado e, numa quarta-feira de manhã; estava frio, se bem me lembro, o doutor lembrou-se de criar a guilhotina.
Mas , ingratas criaturas, não pensem que o fez porque era mau, que não era...e se eu estou a mentir que me cortem já aqui a cabeça!
Bem, então este também emérito médico vacinador, e muito antes da revolução de 1789, foi eleito representante do Terceiro Estado e, por via disso, tinha sérias preocupações para com o seu povo. De maneira que depois de ter pensado no artefacto nessa tal quarta-feira, dias depois apresentou o projecto à Assembleia Nacional , só que, azar do caraças, fê-lo no fatídico ano de 1789. O que ele pretendia, sinceramente, era aplicar o princípio de Beccaria ou seja, da uniformização das sentenças. Ele explicou ( até parece que o estou a ouvir ) : « les délits du même genre seront punis par la même genre de peine, quel que soient le rang de l'etat du coupable.» Democracia pura! Preocupação social meritória. Numa palavra : justiça igual para todos. ( são, como repararam, três palavras, mas paciência .)
Portanto, dizia -e traduzo para aqueles que não falam estrangeiro- que os delitos do mesmo género serão punidos pelo mesmo género de pena, não importando a origem social do culpado.
Para democratizar então as penas de morte, o doutor Guillotin, sugeriu a construção de um engenho para tal fim. Explicava ele, com o seu ar amoroso: «a mecânica desliza...a cabeça voa, o sangue corre...o homem deixa de existir.» Que bonito quadro poético!
Só que, coitado, os bárbaros que fizeram a revolução, aproveitaram-se da sua boa fé e, três anos depois da sua ideia genial, a maquina de matar de morte degolada, foi usada como arma de destruição maciça; qual foice a ceifar vidas durante todo o PREC gaulês; numa rotina sem fim à vista.
Estupores.
O pobre médico, envergonhado de ter o seu nome irremediavelmente ligado ao que se tornou um terrível engenho, começa a definhar, a comer mal, a deixar de tomar as vitaminas...e , pobrezito, quina em 1814...de carbúnculo!

Por isso não me venham cá com tretas!
[ E tratem de estudar, mas é, a vida do sacana do Robespierre ,porque, esse sim, é que morreu guilhotinado! E foi muito bem feito!]

Ana [9/24/2003 10:00:00 da manhã]