Crónicas Matinais

[ terça-feira, setembro 09, 2003 ]

 

O Francisco José Viegas, por quem a admiração é geral e consensual, escreve, no seu Aviz ,que aqui no meu blog, no Crónicas Matinais, nota-se a «presença do religioso».
Nunca tinha pensado nisso assim, mas o F.J.V. tem razão.
Eu, acima de tudo, sou crente.Acredito em D-us ( que é, para mim, um Só; um D-us de todos) .
Penso, de resto, que nada –nem os dias bons, nem os maus; nem o riso, nem o choro, nem qualquer sentimento - tem sentido sem essa força que me guia. Que me guia.
Mas, e já que é de religião que se fala, das crenças, gostaria de dizer que não sei muito bem ( se é que sei de todo) falar destas coisas, da temática, sem eu sentir que estou a entrar em areias movediças.
Eu explico:
Há sempre um pudor imenso , para quem não pretende impor nada, nem “evangelizar”, em falar sobre as suas crenças , a sua religião.
Porque esse discurso-o mais das vezes sentido e sincero- pode ser visto como uma tentativa de convencer alguém a juntar-se a “nós”; como um tentar convencer . E isso é, não só péssimo, mas injusto.
Porque a fé, a verdadeira fé; aquela que nasce connosco, que vive em nós, que nos faz respirar e transpira da nossa pele, não se pode legar. Não se pode passar a “estranhos”. Estranhos no sentido de membros de outras famílias que não a nossa.
O primeiro contacto com a religião dá-se no seio. Literalmente.
É a mãe que conta a história de Moisés; de David , de Salomão; do menino Jesus; dos Reis Magos.De Abraão.
Em todas as mães que contam essas histórias de vidas terrenas há uma certeza comum : a da existência de D-us.
Depois cada mãe conta a história à sua maneira. A mãe judia conta Moisés, Josué, Samuel, Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Amós, Jonas , Miquéias, etc.
A mãe católica conta Jesus, Pedro, Paulo…mas começa também por Moisés.
A mãe muçulmana conta Abraão e mais profetas.
E é deste leite bebido ao som da voz da mãe, a contar a religião com voz de fada, que se faz a nossa fé.
E isso não é transmissível. Não se passa. Ou se tem ou não se tem.
Eu nasci e ouvi sobre Pedro e Paulo, porque a minha mãe, que nasceu a ouvir sobre Moisés, Josué e Samuel, resolveu mudar. Não só de vida, mas de religião.Por um amor maior que é o meu pai. E porque a injustiça a cansou. E porque a minha mãe, ainda hoje, acredita que um novo Holocausto é possível. E porque ela continua a amar a D-us. Que, como ela sempre diz, é só UM.
Ama-o é com ritos diferentes. ( Como se isso fosse importante…não é! )
Eu bebi o meu leite materno a ouvir , então, a história do Cristianismo e Catolicismo.
Mas, depois , ao abraçar a minha dupla mãe, a minha avó materna, ouvi sobre as nossas raízes; sobre a Torah ( os cinco livros de Moisés)[ nunca escrevo Torah da mesma maneira ] ; os livros dos Profetas; e os Escritos Sagrados.
E senti-me , verdadeiramente, judia.
Mas , quando voltava a casa, quando regressava ao seio materno, ouvia sobre o Novo Testamento e, lá está, também me sentia cristã. Fui baptizada, claro.
E vivi, alguns anos, entre os dois povos do Livro.
Porque –sinceramente- nunca vi isso como uma contradição. Pois se o Pai, se D-us, é o mesmo!
Na altura em que me senti com maturidade suficiente para escolher , escolhi -olhando bem para dentro de mim- o Judaísmo.
Sem dramas familiares. Na minha casa , na minha família, festeja-se Rosh Hashanah e o Natal. Péssach e a Páscoa católica.
Nessas alturas, sagradas, o pão ázimo está na mesa; assim como o bolo-rei. Sem problema nenhum.
Ao por do sol de sexta-feira, quando começa o Shabat, e se estamos todos juntos, católicos , judeus e muçulmanos ( sim, por casamento, há um muçulmano na nossa família o que nos orgulha muito ), a minha avó, eu ,ou a minha irmã mais velha , acendemos as velas e rezamos. E todos respeitam. O mesmo se passa no Natal , ou no Ramadão.
Porque quando há respeito , não há guerras religiosas.
Aliás, o Talmude ( os sessenta e três tratados de assuntos legais, éticos e históricos , escritos pelos antigos rabis) , diz claramente: « Os justos de todas as nações merecem a imortalidade», ou seja, os judeus não condenam, jamais, os devotos de outra fé.
Os verdadeiros cristãos e muçulmanos também não. E assim é que está bem. É assim que D-us quer.
Ele que é só Um.
Tudo isto para dizer , expondo-me em consciência, que quando se tem esta abertura, este respeito que me vem do berço, as questões menores não se colocam.
O livre arbítrio impera.O respeito.
Voltando à vaca fria.
Quando me apetece falar de D-us, ou do judaísmo- o que para mim é tão saudável e normal como respirar- faço-o. Mas , ensinou-me a ainda pouca experiência que tenho da vida, não o posso fazer de forma a que isso possa ser considerado uma comparação maldosa, i.e., de forma a que pareça que estou a dizer que a minha religião é melhor do que a dos outros; como se me estivesse a armar aos cucos; feita dona da verdade.
Isso nunca fiz, mas sei que quem lê,e que não nutre simpatia pela minha fé, pela minha maneira de sentir a vida e os homens e a religião dentro dela, pode ver as coisas assim.
Isso é o que provoca os maiores mal entendidos, os maiores ódios.
E eu, para além de não gostar de mal entendidos, não tenho paciência para explicar sempre tudo muito explicadinho, como se precisasse de me explicar, de me justificar por dizer o que sinto. Não preciso.
Sinto que não preciso porque não maltrato ninguém ; não desrespeito nenhuma fé. Sigo o Talmude.
Sou como sou. Acredito no que acredito. Respeito. E pronto.


Se se sente essa presença do religioso , aqui neste blog, fico feliz. Porque me estou a mostrar tal como sou.
Sem esconder o essencial. Gosto disso.
Obrigada , Francisco. Mais uma vez.

Sobre a questão política e religião também tenho umas coisas a dizer. Mas fica para daqui a bocado, que agora tenho de ir ali…mas já venho!

Ana [9/09/2003 11:36:00 da manhã]