Crónicas Matinais

[ segunda-feira, setembro 22, 2003 ]

 

Tinha de acontecer...

Depois de dois anos a escrever como uma maluquinha, no meu Pastilhas, sempre soube que, mais dia menos dia, iria lá buscar um desses textos, quando me faltasse o tempo- ou a inspiração- para o blog.
De modo que esse dia é hoje.
Mas, antes , queria justificar-me: sempre que estou triste, doente, ou simplesmente com saudades, pego num livro que me faz rir sempre muito.
E eu adoro rir.
No pastilhas, abri um tópico no fórum (Enfermaria-Remédios) , há mais de um ano, acho eu, onde falava de livros e de literatura. Nesse tópico , entre muitos autores e livros, eu e os meus companheiros do Pastilhas, dissemos ( e ainda dizemos se quisermos) as nossas opiniões e até colocámos excertos dos livros que gostamos.
De maneira que, um dia, também lá coloquei excertos deste livro ( deu trabalho porque a obra não está online )que me apetece falar:

«Este livro, de que me apetece falar, começa assim:

« Ainda que este livro não deva ser, de modo nenhum, uma daquelas autobiografias grotescas em que o autor relata toda a sua história desde a idade das fraldas, não posso deixar de citar a data triste da minha infância em que- motivado pela circunstância de meu avô dormir de braços abertos- pretendi crucificá-lo no colchão, chegando a cravar-lhe uma cavilha na mão esquerda.
Ao contrário do que se propalou pelas vias de coscuvilhice da vizinhança, a gangrena que o vitimou não derivou do ferro ferrugento da cavilha, mas de um panarício anterior ao atentado- o que não impediu que tanto a acção concreta como a calúnia me marcassem para o resto da vida, com a memória escaldante de uma tragédia.(...)"

Eu sempre que preciso de me alegrar, de rir lendo, pego neste livro ( neste e no irmão deste, ou seja, a parte dois) e leio-o com avidez, sofregamente , porque sei que enquanto o leio não há nada que me chateie.
Choro até não poder mais...mas a rir!
Sei de gente que o leu e não se riu tanto...mas eu sou completamente apaixonada pelo humor corrosivo, irónico e sobretudo inteligente do autor.

Na página 101 diz assim:
( falando dos seus filhos trigémeos)
"Quando, pela primeira vez, ainda muito pequenos, foram expulsos de um colégio dirigido por monjas, devido aos mais incomensuráveis actos de indisciplina, fechei-me no meu gabinete de trabalho e chorei, primeiro só, depois agarrado a Patrícia Flávia, que, entretanto, entrara e também chorou, por fim debruçados sobre o regaço de Clotilde Maria Remarque, chorando todos, num caudal de lágrimas que se propagou à cozinha e ao próprio motorista- o que, naturalmente, me desagradou, pois sempre gostei de guardar para mim os desgostos e jamais aceitei compartilhá-los com o pessoal.
Chamei-os à minha presença, os três horrorosamente vestidos, vesguíssimos, provocadores no falar e nos gestos, e perguntei-lhes:
- Foi "isso" que vos ensinei?
- "Isso" , o quê? - atreveram-se a ripostar.
- "Isso"...serem expulsos do colégio.
- Não fomos nós que nos pusemos na rua: foram as freiras...
Diálogo impossível. A única linguagem era a bofetada , numa actividade repetitiva e dolorosa, a mão tornada dormente pela confusa esgrima de tabefes a multilicar por três! Fiquei prostrado num sofá, magoadíssimo numa falange...
E eles? Pois após os primeiros choros, retiraram para o corredor e ainda os ouvi começar a rir, troçando de mim, comentando entre gargalhadas:
-Até parecia o D'Artagnan!
Raras vezes na vida me senti tão deprimido."

Bom...isto é apenas um bocadinho muito pequenino, se me permitem o pleonasmo...

Não resisto a colocar aqui outra das uma das minhas passagens preferidas:

"(...) Em 1968, ano do turbulento Maio que flagelou a França e do lutuoso Agosto que atolou as ruas de Praga da mancha soviética, a minha vida receberia um dos seus mais rudes golpes: a morte de Clotilde Maria Remarque!
Foi numa tarde amena de Outono lisboeta.
Como habitualmente ,a escritora fazia o seu passeio pelas ruas da Lapa e da Estrela, sentada na cadeira de rodas que, ora eu, ora a Pifá, ora a criada negra, empurrávamos , num andamento lento e cadenciado : deliciosos momentos de relax coloquial que nem a catinga da africana, atenuada pela brisa do Tejo, conseguia perturbar...
Clotilde Maria Remarque estava num momento de notável inspiração, dissertando sobre uma biografia de Fuas Roupinho que tinha em mente realizar muito em breve, a pedido dos editores e, sobretudo, reclamada pelo rigor da verdade histórica , tantas vezes adulterada por dificiências de informação.
E dizia a literata:
- Tenho provas de que, na Nazaré, nunca houve veados!
Provas ecológicas irrefutáveis! A que propósito, portanto, um milagre com um diabo disfarçado de veado, numa zona onde seria muito mais razoável encontrar-se uma lebre ou, por exemplo, um texugo?!
- Indiscutível, murmurava eu, já perturbadíssimo de entusiasmo e de gozo intelectual.
Mentalmente , antevia o êxito e a venda do novo livro, as discussões na Brasileira, uma eventual intervenção do Patriarcado, em defesa da versão original do milagre, conferências de imprensa, mesas-redondas, um afluxo turístico excepcional à Nazaré, com repercussões em todo o país, postas em causa as carências hoteleiras, colóquios internacionais sobre investimentos estrangeiros, hipóteses de um filme com Peter O'Toole no papel do cavaleiro miraculado, enfim, tudo aquilo que uma obra inédita de Clotilde Maria Remarque tornava lícito antever!
E minha sogra( uma verdadeira mãe) insistia:
- Em minha opinião, tratava-se de um texugo, animal espantadiço e capaz de se despenhar num abismo ante o galope desenfreado de um cavalo. Por outro lado, a hipótese do texugo também justifica a excitação do cavalo, motivada pelo odor pestilencial que aqueles bichos exalam...
- Cristalino!- exclamei com sinceridade, olhando a negra de soslaio.´
- E o livro será um romance? - Indagou Patrícia Flávia.
- Biografia, filha, biografia! Factos, factos, factos...
Homem de exactidão, do documento, do papelinho, única forma de nos colocarmos sempre " in the save side", como dizem os ingleses, eu não poderia deixar de apaudir, soltando , por momentos, as pegas da cadeira de rodas, para bater palmas, eufórico:
- Bravo, mamã!- gritei.
Mas ela já não me ouviu...
Estavamos na esquina entre a Rua Borges Carneiro e a Calçada da Estrela, encruzilhada fatal onde jamais admiti que a fedente serviçal, que nada entendia da conversa e cuja obrigação era prestar atenção aos movimentos , levasse a sua criminosa apatia ao ponto de não deitar mão ao veículo da entrevada.
-Miserável!- ainda lhe atirei, antes de me lançar na vã preseguição da cadeira que transportava, vertiginosamente, a maior escritora portuguesa do nosso século.
Foram momentos de indescritível pânico: a cadeira de rodas, com inúmeros passantes na peúgada , muitos deles admiradores da venerada figura, foi colhida por um eléctrico que descia a calçada e tomou, caprichosamente, a direcção do Largo de S.bento, no meio de gritos da multidão crescente.
O burburinho alarmou todo o bairro e consta que o próprio Dr.Oliveira Salazar, por detrás de um reposteiro junto à janela da sala onde se encontrava em reunião com alguns ministros, terá visto passar a cadeira , tornada bólide, e comentado, impressionadíssimo:
- Vai ali, salvo erro, em má situação, Clotilde Maria Remarque: uma adversária, mas respeito-a! Deus permita que não lhe aconteça nada!
Desgraçadamente, aconteceria:
Ao desembocar na Av.D.Carlos I, a cadeira foi novamente colhida por dois automóveis e um autocarro, descreveu várias piruetas, ganhou ainda mais balanço e apontou para a Avenida 24 de Julho, em cujo cruzamento embateu com um camião de transporte de pianos que a projectou para a linha férrea, no exacto momento em que o rápido de Cascais vinha a passar, provocando uma deslocação de ar tão violenta que a lançou, num remoinho, para o tejadilho das carruagens , em tamanha velocidade que acabaria por ultrapassar a própria composição ferroviária e voar, é o termo, para o Cais da Ribeira, onde se despedaçou de encontro à amurada de uma traineira, com tal entrépito de ferragens e prováveis gritos da escritora, que um trabalhador do porto, incompetente e bêbado, como é hábito, se descuidou no manobrar de um guindaste e deixou despenhar-se um enorme caixote com latas de sumo de tomate em conserva, sob cuja massa disforme Clotilde Maria Remarque pereceu e para sempre desapareceu, sem deixar qualquer rasto!
Os jornais fizeram edições extra, noticiando o acidente que assim privava a literatura portuguesa e europeia de um dos seus expoentes máximos : o país estava de luto!
E embora não haja uma documentação segura que garanta a autenticidade de tais afirmações, diz-se que o Dr. Oliveira Salazar seguiu nessa mesma tarde para a sua residência no Forte de S.João, de tal modo combalido pelo desfecho do desastre nacional a cujo início assistira , que se teria recusado a jantar, obcecado pela imagem da cadeira...
Ainda segundo esta versão( repito: não comprovada) dos factos, fora de fraqueza que aquele estadista se desequilibrara, batendo com a cabeça no chão e provocando o hematoma que o conduziria ao hospital, no estado em que todos nós sabemos.
Atordoadíssimo pela pancada, o Dr.Salazar teria feito uma atabalhoada e gaguejante referência a uma cadeira que seria, afinal, a de Clotilde Maria Remarque- e não um móvel paradoxalmente inseguro do seu mobiliário...»


Enfim. Vale a pena ler na totalidade! Confiem em mim!

" Coca-cola Killer" António Vitorino D'Almeida , Difusão Cultural.


Ana [9/22/2003 12:22:00 da tarde]