Crónicas Matinais

[ sexta-feira, outubro 03, 2003 ]

 

Então pego no livro e releio, pela milionésima vez : ( e sempre com fair-play e lenços de papel ao pé )

« (…) Esta visita à tia Alberta era uma velha tradição de todos os Domingos de Páscoa: a santa senhora dedicava-se ao espiritismo e evocava nesses serões o espírito de Judas para o cobrir de injúrias, num tom de voz e usando de um vocabulário que só os excessos do transe poderiam justificar.
Nunca , no seu quotidiano, a minha tia Alberta seria capaz de proferir palavras que excedessem a dureza de um «apre». Uma vez, entalara-se no elevador ( onde ficaria com uma falangeta esmagada! ) e murmurara: «arre!»…Quem a visse chorar, pensaria que era dor. Puro engano: chorava de vergonha pelo deslize linguístico!
Educações antigas. Seria sempre, para mim, causa de espanto anual a série de insultos soezes com que minha tia Alberta recebia os sinais enviados do Além pelo traidor do Rei dos reis.
Quando um determinado pires vermelho, colocado sobre uma pequena mesa de pé-de-galo, começava a girar estranhamente, anunciando a presença espiritual de Judas, a digna senhora entrava em comunicação com os mundos ocultos e exclamava num exacerbamento de furor religioso:
-- Ó meu cabrão de merda! Querias matar o Senhor, não era? Mas quem se lixou foste tu, grande sacana, pendurado numa figueira! E o Senhor cá está, ressuscitadito, em mais este Domingo de Páscoa, de boa saúde e de melhor disposição para escutar os nossos cânticos!
E começava a cantar numa toada lúgubre:
«Aleluia! Aleluia!
O senhor venceu a luta
Contra o Judas filho da puta! »
Além de mim e de um notário idoso que, nos tempos da minha infância, que me oferecia rebuçados curiosamente embrulhados em folhas inutilizadas de papel selado, assistiam a estas cerimónias três ou quatro velhas senhoras amigas de minha tia Alberta. Na realidade, essas senhoras nunca eram as mesmas , pois, com o rodar dos anos, iam falecendo; mas havia sempre outras que, entretanto, envelheciam e ocupavam o lugar das desaparecidas.
Nenhum de nós intervinha nos diálogos de minha tia com o outro mundo , salvo quando, notoriamente , o espírito presente não era Judas, mas qualquer outra figura histórica.
Então, nós batíamos ao de leve no ombro da tia Alberta e alertávamos:
- Não é ele! Desta vez é Napoleão…»

( Continua, noutro post, para ele não ficar demasiado longo. No final identificarei o livro,para os mais desatentos que ainda não tiverem percebido qual é!… )

Ana [10/03/2003 11:39:00 da manhã]