Crónicas Matinais

[ sexta-feira, outubro 31, 2003 ]

 

Entretanto lembrei-me de dizer o seguinte:
O que eu mais gosto , tanto na vida real, i.e., ao vivo e a cores, como na blogosfera, é a pluralidade de génios e de opiniões.
Mas, sendo eu humana como todos-julgo eu- que pululam na blogosfera , também tenho as minhas preferências e as minhas embirrações. O problema, aqui na blogosfera, é gerir essas embirrações sem entrar na demagogia fácil ou no insulto. Além disso, prefiro que pensem que sou loura ( as louras que me perdoem este cliché , mas já devem estar habituadas, não? ) e burra ( reparem que que acrescentei o-e, sempre suaviza a coisa ; e explica que uma condição não é -obrigatoriamente -gémea da outra ) . do que arrogante e arbitrária.
De maneira que me calo. No sentido de não escrever, claro.
Ultimamente tenho lido coisas, aqui na blogosfera, que me enraivecem de tal forma, que lá está, estive uma semana sem escrever.
Aquele tipo de opiniãozinha saloia, de quem fala de cor, que cita o que lê nos livrecos que , provavelmente, lhe emprestam , sem ter a mais pálida ideia do que é a realidade. Sem saber do que fala.
É a maravilhosa liberdade em estado puro, graças a D-us.
Mas não são as opiniões parvas e demagógicas que me irritam; com isso posso eu bem, até porque uma generosa parte das minhas opiniões também -admito- podem ser consideradas igualmente parvas e demagógicas. O que me irrita, profundamente, é o facto dessas opiniões serem sempre apresentadas como verdades absolutas ,não o sendo de todo.
Clarificando: Há verdades absolutas, irrefutáveis , claro! E quando assim é , a nossa opinião a propósito , em caso de as querermos refutar, ou porque somos parvos, ou porque somos teimosos e burros, não vale a ponta d'um corno. Nada. Nadinha. Nicles.
Porque as verdades, os factos, cagam para as nossas opiniõezinhas de trazer por casa. Porque nenhuma causa valida a estupidez perante a realidade.
Logo, penso eu, dar-lhe importância é entrar no jogo e ser tão estupido como.
Quando nos olhamos aos espelho, sem termos a plateia a olhar para nós, conseguimo-nos enganar? Não; claro que não.
Podemos fazer de conta, perante os outros, que somos os maiores, os mais inteligentes e ladinos...mas e perante nós próprios ? Enfim, continuo a pensar que o julgamento mais cruel, o que dói mais, é o nosso ; o nosso auto-julgamento.
É por isso que nem vou dar exemplos...

E agora um pequeno apontamento de humor

Aqui em "Paris de França", e como todos sabem, moram muito portugueses. Um milhão, só na região parisiense.
É por isso que a nossa língua é franca. Estava eu , um dia destes, à espera do comboio ( desde que me roubaram o carro aqui há meses, comecei a andar de transportes públicos, e agora não quero outra coisa ) para voltar para casa, quando toca o meu telemóvel. Atendi. Falei baixinho, como toda a gente deveria fazer, e um minuto depois desliguei. Entretanto o comboio chegou e eu entrei e sentei-me. Uma senhora, já de uma certa idade, senta-se à minha frente e sorri para mim. Eu retribuí e peguei no meu livro para ler. A senhora olha para a capa do livro e começa a sorrir-me mesmo muito. Eu pensei: -Olha, mais uma maluca!- e continuei a ler tranquilamente. E a senhora pergunta-me, em francês: - Desculpe, mas a "madame" é portuguesa não é? E eu: -Sou, sou , e a senhora também ? E ela: -Sou! E eu comecei logo a falar-lhe em português e ela a mim. Nisto diz-me ela : Olhe, eu ouvi-a ao telefone e pareceu-me que falava português, mas só ao vê-la com esse livro é que tive a certeza; mas, diga-me, é sobre aquele assunto da "Casa Pia"? Eu, muito admirada: - Da "Casa Pia"? não, claro que não! Mas porquê? E a senhora: -Bom, como diz que é para maiores de 18 anos...

Eu estava a ler o Livro do Pipi, que o meu querido amigo Hugo Pires me mandou a semana passada. E a senhora pensava que, à semelhança do "Ballet Rose", o caso "Casa Pia" já estava em livro; e que por isso o livro era para maiores de 18 anos. O humor ( algo negro ) foi explicar-lhe que , mesmo que estivesse em livro , o Caso " Casa Pia" nunca poderia ser conhecido como " O Meu Pipi"...E , depois, explicar-lhe o teor da obra.
No fim, e depois de a ter deixado dar uma vista de olhos ao livro...a cara da senhora valeu dinheiro! ;)

Ana [10/31/2003 11:56:00 da manhã]