Crónicas Matinais

[ terça-feira, outubro 14, 2003 ]

 

Gosto muito de ler Lêdo Ivo.

Poeta; jornalista; escritor brasileiro. Um dos maiores da chamada geração de 45.
Um dia,há muito tempo, estava no Rio de Janeiro a passear-me pelas ruas solarengas e cheirosas e vi,nas mãos de uma criança de rua, um livro de Lêdo Ivo. Não sei se a criança ia- ou estava- a ler esse livro; podia tê-lo encontrado, por exemplo. Não sei.
Sei que , como não conhecia o nome, fui informar-me. Entrei numa livraria muito bonita, em Ipanema, e perguntei por ele; por Lêdo Ivo.
Tinham muitos livros, claro. E o livreiro- um senhor da Baía que, julgo eu, ainda lá trabalha, o Sr. Vargas, contou-me ,assim por alto, as "peripécias" literárias e poéticas de Lêdo Ivo.
Na altura não comprei nada. Segui viagem pelas ruas do Rio.

Um ou dois dias depois, num verdadeiro botequim de esquina , entre homens barbados a beber pinga, confrontei-me -de novo- com Lêdo Ivo.
Estava lá um nordestino, muito bêbado, que falava de Lêdo. Que dizia que as raposas estavam a descer ao povoado; à cidade - verdadeiro ninho de cobras. Um dos senhores mais sóbrios, que o ouvia, dizia-lhe : « Eta, você tá pingado mas tá citando o rei; bebedeira com Lêdo é coisa muito boa". E era.

De modo que voltei à tal livraria , e o sr. Vargas embrulhou-me três livros -segundo ele: os melhores.
Trouxe então " As Imaginações" ; "Ode ao Crepúsculo " e -o já citado- " Ninho de Cobras".
Saboreei a poesia- como ela deve ser saboreada, ou seja: com calma e com sentido; mas, o romance "Ninho de Cobras", devorei-o.

Um dia, já recentemente e cá em Paris ( onde Lêdo Ivo também viveu ) , estava entretida a vasculhar as livrarias de livros usados, em St Michel -Notre Dame , e , dentro de um caixote de livros estrangeiros e empoeirados, "lá estava ele": Lêdo Ivo.
O romance :" As Alianças". Edição brasileira, da "Record"; a sua editora de sempre, penso eu.
O livro está autografado pelo próprio; dedicado a um amigo com nome francês, mas que, pelos vistos, lia e falava português; e datado de 1967.
Mais: nas páginas 36 e 113 , tem apontamentos- a caneta - feitos por ele. Sei que são feitos por ele, porque a letra é a mesma ; e a caneta também.
Na página 33, onde tem início o capítulo 4 , que começa assim:« Acordar todas as manhãs equivalia a uma ressurreição diária. Sair do sono , que é a morte,para a vida, abrir os olhos para a luz da manhã, entregar-se aos sentidos excitados pelo conhecimento da realidade. A luz do sol era brusca, e procurava apoderar-se de todas as coisas.» ; Lêdo Ivo escreveu: « meu amigo, sempre é assim, você não concorda comigo? ».
E na página 113, mais ou menos a meio do capítulo 10, Lêdo Ivo sublinhou esta passagem: « Relanceando o olhar, Jandira observou que José voltara a abeirar-se de Vera. Era decerto porque os corpos sabem dialogar mais do que as almas.
Por sua vez, José dizia a Vera, retomando a conversa interrompida : - A tragédia do amor é querer ir além da epiderme, você não acha?
Vera sorria, sem dizer palavra: era a sua maneira de achar.» À margem, Lêdo Ivo escreveu : « me inspirei em vocês». Sem mais.

Gosto muito deste romance; mais ainda do que gostei do " Ninho de Cobras".
Aliás, que eu tenha percebido, ninguém descreve -como Lêdo Ivo- a década de 40; especialmente no Rio de Janeiro. É um romance de amor, claro. E de solidões, abandonos e frustrações. E foi o seu primeiro romance. E ganhou prémios, como quase todos os seus livros.

No " Ninho ce Cobras", Lêdo Ivo conta a história da desilução nacional brasileira.Dizem.
O autor disse desse, o que disse de todos: « Eu apenas quis contrar uma história» . E como a contou bem!

E é por isso que eu,um destes dias, ao dar com a pilha de livros de Lêdo Ivo , que cá tenho comigo, me lembrei de falar dele. Até porque ainda tenho, na memória, muitas frases de um desses livros , um desses seus romances que eu gosto,e que foi o último que li dele. Porque é difícil encontrar mais cá.
Frases do " A morte do Brasil". Um livro maior. Um livro que abre com esta citação:
« Esta é a ditosa pátria minha amada.» Camões.

Mais um grande história.

Ana [10/14/2003 10:54:00 da manhã]