Crónicas Matinais

[ sexta-feira, outubro 03, 2003 ]

 

« Imediatamente , o diálogo mudava de tom, pois minha tia respeitava imensamente o eminente corso, no qual apenas via com olhar crítico as aventuras amorosas de teor adúltero. E como Josefina fosse a única esposa que lhe reconhecia em termos de legitimidade conjugal, nunca perdia a oportunidade de dizer, com certa intenção na voz um pouco tremida pela idade e pelo transe:
- As minhas respeitosas saudações à Senhora Dona Josefina…
- Serão entregues – respondia o pires num voltear mesureiro.
Noutros casos , estabelecia-se comunicação com alguma velha amiga recém-falecida que ainda no ano anterior tinha assistido à cerimónia – e aí verificavam-se cenas comovedoras , demonstrativas de que a amizade perdura para além dos túmulos.
- És tu, Clementina?…Oh, minha querida, que desgosto me deu a tua morte! Então que ideia foi essa de caíres na escada? Eu não te disse tantas vezes que tivesses cuidado com os degraus de pedra?…Olha: não sofreste,pois não?…Como?…Ah, sim, viste logo um anjo!É porque morreste no mesmo instante, filhinha!
Graças a Deus, morreste logo ali! Aqui, os médicos disseram que tinhas partido a espinha por alturas do pescoço…Pois…E diz-me cá: tens visto a Teodora?…A Teodora!…A TE-O-DO-RA!!!…Ai, filha, que até no Paraíso és surda!…A nossa amiga Teodora, a modista que ficou atropelada …Quê?…Quem está aí?!…
Era Judas que chegava atrasado e procurava desculpar-se. Mas a voz da tia Alberta ganhava timbre metálico das condenações eternas, na presença do velho pecador:
- Quais desculpas nem meias desculpas! Para ti não há perdões, meu maricas!
O pires vermelho girava destrambelhadamente , num atabalhoamento de explicações. Judas tentava em vão dizer que os anjos o rasteiraram pelo caminho, impedindo-o de chegar à hora prevista.
Pressentia-se na humidade da porcelana que a alma de Judas chorava, maldizia aquela hora de fraqueza , havia quase dois mil anos ( e parecia que fora hoje! ), em que cedera à tentação infame do suborno para trair o Mestre- e afirmava que enquanto o dinheiro dominasse o Mundo , jamais um homem deixaria de vender o seu irmão!
A tia Alberta, contudo, não se comovia e rosnava, a voz cavernosa, sinistra, mordida pelo ódio, uma baba espumante e repelente a escorrer, sinuosa, por entre os lábios:
- Na peida! Na peida!
Com esta desagradabilíssima expressão, terminavam normalmente as sessões. A boa senhora regressava, em poucos segundos, à sua aparência normal, retomando o doce carácter do quotidiano.»


E pronto. Fica mais um bocadinho da prosa, deliciosa, de António Vitorino D'Almeida, no seu , já mítico: " Coca-Cola Killer"

Antes este humor refinado, que as anedotas de Pedro Lynce...certo?

Ana [10/03/2003 12:13:00 da tarde]