Crónicas Matinais

[ quarta-feira, outubro 15, 2003 ]

 

[Início, e explicação, no post anterior. O primeiro do dia. Obrigada.]

« Ele aparece, vem descalço, apenas com meias. Para entrar, obedece-se a este ritual cheio de significado e sentido. Quando a filha regressou a casa criaram um regime em tudo parecido ao do isolamento.

Depois de uns tantos telefonemas ,marcou-se um encontro em casa do doutor Castanheira. São quatro da tarde quando toca a campainha na moradia geminada. Quando a filha regressou a casa , criaram um regime em tudo parecido ao do isolamento.Tudo tinha sido esterilizado, forrado com lençois que iam sendo lavados periodicamente. Hoje, essas regras são «muito menos austeras», mas o hábito de não entrar com sapatos dentro de casa irá perdurar. À entrada, Castanheira conta que a mulher não quer falar: « Ainda está tudo muito vivo e ainda falta um ano para que desapareça a sombra das nossas cabeças.» A conversa foi feita por doses , com idas ao café e para comprar o jantar. Ah, claro, houve também tempo para brincar com a menina da história e os seus caracóis. A vitória sobre a doença ganha um estranho valor quando podemos rebolar na sala com uma criança que tem a estranha curiosidade por tudo o que vê e um sorriso – quando se ouvem estas histórias aprende-se a importância de um sorriso. A conversa começou às cinco da tarde e acabou perto da uma e meia da manhã. Houve tempo para tudo , conversar, ouvir, perceber a doença, rir, recordar e respeitar lágrimas. Logo no início , Castanheira deixou que os olhos o traíssem e explicou: «Hoje, para mim, chorar ou não chorar já não tem muita importância.Deixei de ter problemas com isso.» A sua história é trágica, como tantas outras, só que terminou bem. Está a decorrer bem. Durante vários anos , Castanheira lutou contra o cancro na oftalmologia do IPO porque, curiosamente, há muitas crianças com doenças oncológicas oftálmicas. Quando fala dos casos que lhe ficaram atravessados na memória, as lágrimas correm e o seu leve sotaque ribatejano acentua ainda mais as emoções.
Respirar fundo. Respira-se fundo muitas vezes.
Estavam de férias, « a menina tinha apenas um mês». Com as primeiras dores ligaram aos amigos pediatras, ao fim de 24 horas o diagnóstico tinha sido feito. Era grave. Passadas mais 24 horas tinham todas as certezas: era a leucemia mais mortal que podia existir. «Tínhamos trinta por cento de hipóteses», recorda. O facto de ser médico aumentou a consciência de que aquela luta mais facilmente se perdia que se vencia. Castanheira conta que teve o apoio dos colegas e amigos. Todo o IPO queria saber em primeira mão os resultados, os coelgas de serviço aliviaram-lhe o trabalho quando podiam , Castanheira recebia doentes, comia, dormia e passava as noites ao lado da filha no pequeno quarto do isolamento da pediatria. A mulher, família e amigos revezaram-se no acompanhamento da criança. Toda a gente estranhou a sua força : «Ela passava pela quimioterapia com uma facilidade inacreditável.» Aos poucos , a confiança foi sendo restabelecida.
Apesar de não ser católico observante e de não ter casado pela igreja , todos acharam que o momento se impunha: Cstanheira quis baptizar a filha. Aquele gesto podia fazer falta na luta que a filha travava pelo futuro.
Não dá para perceber se já era assim, mas os laços que prendem todos os que vivem aquele combate são inseparáveis . O futuro apresenta-se risonho e há muitas cassetes de desenhos animados a serem devorados. »

[ G.R. 136. Ano XIII. 2ªSérie. Julho 2002. Duarte Mexia; “ IPO-Anjos de Carne e Osso”. Págs 89-90. Extracto. ]

Fica este excerto. A história que eu gostava que fosse a nossa ( da minha família ). Ao lê-la sinto-me feliz.
Aproxima-me de D-us. E da minha sobrinha. E de todos os Anjos: os de espírito e os de carne e osso.






Ana [10/15/2003 11:10:00 da manhã]