Crónicas Matinais

[ sexta-feira, outubro 24, 2003 ]

 

Não fui ao lançamento do diário do Pipi. E não fui pela mesma razão que não fui ao " Terço Vivo": estou a mais de 1600 km de distância. [ Espero que percebam que isto é uma piada; é chiste; eu acho que vos devo elucidar a este respeito, porque estas piadas ainda dão o seu trabalho a fazer; é preciso muita pesquisa e tal...]
Não. Adorava ter ido. Além disso, e como todos sabem -ou imaginam- qualquer acontecimento que tenha o dedinho da querida Charlotte é um sucesso .
Mas não é sobre isto que quero falar .

Acontece que esta noite, quiçá devido aos meus problemas gástricos, fui agraciada com uma revelação. E, como qualquer revelação que se preze, foi-me concedida durante o sono.
De modo que estava eu a dormir, muito desassossegada por via do meu estômago, quando me apareceram- vindos do nada : Jorge Luis Borges e Bioy Casares, que vinham de braço dado com Olivier Rolin; mais o dr.Ferro Rodrigues e, em jeito de remate: João Rebocho. Eu passo a explicar; e não será nada fácil...
O mote é a a palavra Urdidura; o verbo Urdir. Desde a semana passada que não ouço falar de outra coisa. Talvez o verbo cagar...mas continuo a ouvir mais urdidura. Entranhou-se-me de tal forma nos meus dois neurónios , que me levou a sonhar com isto tudo.
Urdir ( e aqui começo já a plagiar Rolin ) é uma palavra superlativamente borgesiana; disto, espero eu, não há dúvidas.
Tecer; entrelaçar; arranjar; tramar; enredar; intrigar. Isso sempre fez Borges -urdir- e é por isso que nos apanhou a todos irremediavelmente nas suas teias e labirintos...certo? certo.
Urdir, mesmo com pouca imaginação, pode significar também: tentar confundir.Baralhar.
De maneira que ao usar , em vez da já gasta "cabala", urdidura, o Partido Socialista está a fazer isso mesmo.
Foi-me isto dito, no sonho, por Borges e Casares , que me lembraram o perspicaz don Isidro Parodiz. Ora, este maravilhoso detective , apesar de ser de papel, conhecia , através dos autores, o famoso criminoso Bigote de Hierro, o « bigode de ferro». Nisto dizem-me os dois, mais o Rolin : « este apelido...não te faz lembrar ninguém ? » Faz !
O Hierro Rodrigues, digo o Ferro ! Bate tudo certo. Cá está : Ferro, urdiduras, detectives e criminosos. Elementar, meus caros.
Bom, ficaram estas informações todas na minha cabeça, a fermentar; até que me lembrei de...João Rebocho.
Calma, este escritor e simpático Bibliotecário em Gouveia ( olha, mais uma acha, bibliotecário, como o Borges!...cada vez bate tudo mais certo.), nada tem a ver com o actual enredo mediático - cor rosa.
Saliento é o facto deste senhor ter escrito um livro com o seguinte título : «Urdidura». Um livro que, apesar de ter ganho o prémio Fnac 2000 ( Prémio de Ficção Literária FNAC /Teorema ),é, para mim, a mais impenetrável, incompreensível estória que li nos últimos anos, em português.
De maneira que, e concluindo : bate tudo, tudo( tudinho mesmo), certo ! Urdida, sinceramente, é a meu ver – e ao contrário do que pensa o excelso F.J.V. no seu Aviz, a palavra certa. Só que é para ser entendida no segundo sentido. Topam ?

Ah, e as melhoras por via da gripe. Shalom.

Ana [10/24/2003 01:20:00 da tarde]