Crónicas Matinais

[ quarta-feira, outubro 15, 2003 ]

 

Pensei muito.

Perdi –há uns anos – uma sobrinha. Com Leucemia. Tinha 4 aninhos.
Agora é um anjo –vive no céu.

Hoje- por iniciativa da Ana Anes- ela, eu, e mais alguns colegas da blogosfera ( D-us queira que sejam muitos ) vamos escrever sobre leucemia.
Doença terrível- mortal - que não escolhe idade nem sexo.
A Ana Anes ( acho lindo que –já o sabemos- para além de todas as coisas que nos ligam, a nossa sigla seja a mesma ) , vai, penso eu, falar da importância das doações de medula óssea . Porque para muitos doentes com leucemia, o transplante de medula óssea pode ser a única oportunidade de remissão da doença.

Eu, que depois de escrever, rasgar, escrever, rasgar ( chorar ); escrever, rasgar... resolvi fazer outra coisa.
Vou colocar aqui um excerto- pedaço enorme de jornalismo feito com o coração- de uma reportagem que li em Julho do ano passado. Na Grande Reportagem.
Uma reportagem de Duarte Mexia.
Uma reportagem que me fez quase parar de respirar. Porque é tudo como ele escreveu; tal e qual.
Porque Duarte Mexia -que intitulou a reportagem : IPO-Anjos de carne e osso – me tocou tão fundo que ...
Não consigo explicar.
Já li milhares de livos sobre; reportagens. Vi filmes e documentários . Vivi o que ele conta na pele. Uma tia desesperada, mas sempre a sorrir para esconder a morte dos olhos da minha menina. E de todas as meninas e meninos. Dos anjos.
Mas não me lembro de nada me ter tocado tanto como essa reportagem.
Já nem falo das lágrimas, dos soluços profundos e inesgotáveis que me provocou ... Falo do sentimento bonito que transpira de todo o texto. Das fotografias. De uma escrita com um corpo dentro; com uma alma boa.

Começa assim, essa reportagem maior-que me marcará para sempre :

« Em Lisboa há um lugar onde as pessoas não são números e os olhares valem mais do que mil palavras. Um lugar onde querem realmente saber de nós e nos chama pelo nome. No Instituto Português de Oncologia há pessoas que, ao lutarem contra a doença, descobrem como é inesperadamente bom pressentir todos os sinais da vida. Se os anjos existem, e se têm sexo, pernas, mão e família – passeiam-se por aqueles corredores. »

Mais do que tentar explicar-vos ( não consigo; não sei traduzi-lo por palavras ) o que é perder uma criança tão pequenina, indefesa e frágil. Uma criança que se esvai à nossa frente...a perder tudo, do cabelo ao brilho dos olhos...A vida. E nós sem podermos fazer nada, absolutamente nada...a não ser fazê-la sorrir ; mais do que isso é colocar aqui este excerto dessa reportagem. Um caso feliz.

O meu anjo – que vive no céu- está , de certeza, de acordo.
Porque sabe que não é inveja que sinto ao desejar que a história que transcrevo fosse a nossa- minha e dela. É esperança, fé e agradecimento.


A transcrição , para que a leitura seja facilitada, será colocada num outro post. Já a seguir.

Ana [10/15/2003 11:07:00 da manhã]