Crónicas Matinais

[ quinta-feira, outubro 02, 2003 ]

 

Por falar em livros...tá mal!

E tá mal, porque parece impossível! que uma editora como a Assírio & Alvim não tenha mais cuidado com as revisões!
Ora atentem:

O meu namorado , moço culto, erudito e pouco amigo de animais com penas, comprou o " Fernando Pessoa- Heróstrato e a Busca da Imortalidade"; Assírio & Alvim ; Edição 587; Setembro de 2000; ISBN 972-37-0594-X [ aqui ele acrescenta , e passo a citar -a brochada!- com um sorrisinho maroto...]
Edição de Richard Zenith e tradução de Manuela Rocha.

Até aqui tudo bem. O problema é que o rapaz, para além de comprar os livros...lê-os!
E foi com estupefacção que , na pág. 66, ele lê o seguinte:

« Estes moribundos acrobáticos conseguem tornar a morte cómica e a bravura repugnante. É necessário apelar a toda a nossa tradição de respeito para lamentar os tolos, e tolos presunçosos, aliás.O seu fim une o suicídio sem patos à tragédia sem dignidade.»

Patos? -pergunta-se ele! Patos?E começa-me a berrar, pela casa fora: patos??? patos???

A esta altura eu estava na cozinha, a passar os azulejos a pano, depois de ter areado todo o meu trem de cozinha que comprei à Srª Dª Felipa Vacondeus, da " Ideia Casa" .
Cuidei que ele tinha enlouquecido e, com a subtileza que só uma mulher apaixonada pode demonstrar, perguntei-lhe , carinhosamente :
-Olha lá, amor, tu estiveste a beber?

Ele, furibundo -e com alguma mágoa , vá lá saber-se porquê- diz-me que não. Que não tocava em álcool há muito tempo; que estava furioso porque tinha lido uma coisa no tal livro que o pôs fora dele.

Eu limpei as mãos ao avental ( por acaso um avental muito giro e étnico que comprei numa feira de artesanato cá na estranja ) , e disse-lhe: - ora deixa cá ver isso.

Peguei no livro e conferia. Página 66; os patos. Como não tinha visto a capa do livro, ainda cuidei que se tratasse de algum ensaio sobre aves de criação e capoeira ...mas não!

Ele, ladino, foi à parte em estrangeiro, i.e., a parte em inglês ( o livro é bilingue) a ver se lá também os havia; os patos.

Mas não :
« These stunt diers succeed in making death comic and bravery disgusting. It takes all our tradicional use of respect to pity fools, and vain fools at that. Their end unites suicide without pathos and tragedy without dignity.» (pag.145)


Ficamos os dois piursos a gritar, a uma só voz: patos!!

Conclusão: Ele fechou o livro e tentou acalmar-se ouvindo o nosso Peter Murphy...e eu voltei para as limpezas, abanando a cabeça e- confesso-o- a pensar que um gostoso arroz de pato seria a melhor ideia para o nosso jantar.

Tá mal ou não tá mal?

Ana [10/02/2003 02:03:00 da tarde]