Crónicas Matinais

[ terça-feira, outubro 21, 2003 ]

 

Por portas travessas, cheguei à seguinte conclusão: A minha amiga Helena é que tem razão! Portugal passou de um Estado laico para um Estado louco.

Posto isto, avanço, sem medos, para outro assunto:
Aqui há meses , estava a conversar com um diplomata português, na reforma, que veio cá a Paris fazer umas compras, quando, por nós, passou um cão. Um cão sujo e claramente doente.
O senhor, muito bem vestido e arranjado, calou-se e comoveu-se. Tinha os olhos marejados. Aquilo fez-me espécie e, depois de uns dois minutos de silêncio, atrevi-me a perguntar : « ó sr. embaixador, então que é isso? sente-se mal? »
E o bom homem responde-me : « Não, minha querida ( calma, que o senhor tem idade para ser meu bisavô),foi o cão. Veio-me à memória um texto , belo e comovente, do Abílio». Eu, já se sabe, por Abílio , assim de repente, não estava a ver quem era. Mas, de repente ( sim, eu sou sempre muito repentina) , lembrei-me da forma como o meu avô se refere ao poeta de Freixo de Espada à Cinta e atiro: « O Guerra Junqueiro! estou a ver...»
O senhor iluminou-se , carago!
«Mas a Ana conhece esse belo texto dedicado ao fiel amigo? » E eu « Então não havia de conhecer!»
Apertou-me ambas as mãos, osculou-mas, e disse-me que eu era uma «menina maravilhosa».
Bom, eu assim de cabeça, e para ser muito sincera, mal sabia as frases do texto, que é belo , de facto. Mas sendo ele diplomata, e eu já andando cá neste mundo há uns anos, lá o fiz pensar que sim; que dominava a prosa.
De modo que estivemos ali para cima de uma hora a falar do texto, dos cães , da amizade ...e do Abílio.
Quando eu percebia que estava a meter os pés pelas mãos, fazia um ar enlevado e -sem qualquer justificação - declamava : « Ai, há quantos anos que eu parti chorando/ deste meu saudoso, carinhoso lar!...»
O bom do senhor , emocionava-se, enternecia-se, voltava a pegar-me nas mãos , dizia-me « Minha querida, minha querida» e afinfava-me mais frases do texto do fiel amigo.
Eu, esquivava-me a norte, a sul...e ao centro, e ao perceber que ia derrapar , tornava aos versos , aos que sabia de cor: « Desde aquela dor tamanha/Do momento em que parti/Um só prazer me acompanha ,/ Filha , o de pensar em ti/ ...»
E assim andamos às voltas essa tal hora bem cheia.
De repente...passa outro cão. Pergunta-me o bom senhor : «A Ana gosta muito de cães também, não é? »
Eu, muito portuguesa, respondo: « Não desgosto...mas prefiro gatos!»
Zangou-se comigo!

E pronto, cá fica registada mais uma história da vida real. Como diz o "outro", achei que era importante contar isto. ;-)

Ana [10/21/2003 12:39:00 da tarde]