Crónicas Matinais

[ quinta-feira, outubro 16, 2003 ]

 

Vamos lá a ver se me faço entender, o que , às vezes, não é nada fácil.
Não concordo com a ideia , discutida aqui há dias, sobre o facto de serem os católicos os que mais podem e devem analisar a figura de João Paulo II.
o Papa não é apenas o chefe de uma igreja. É um chefe de estado. É um homem político. E nunca na história recente, i.e., depois do século XIX, isso foi tão verdade.
O meu problema com o Papa , com este Papa, é precisamente o facto de ele ser mais político que representante de uma religião milenar, e bonita na sua essência.
É o facto deste Papa ter tido- durante anos e anos e mais anos- um único objectivo : acabar com o comunismo.
E não é porque eu não gosto do comunismo, e que até sou de direita, que vou negar o inegável.
Nunca senti, sinceramente, preocupações espirituais com o grande rebanho católico-cristão mundial.
Para além de ditar ordens, e anátemas, em termos de doutrina pouco ou nada o vi fazer. Sei que não é só culpa dele; sei que é do " sistema". Mas houve já outros Papas maravilhosos, que não se esconderam atrás das Sagradas Escrituras para travar o movimento do mundo. Para evoluir. O que sinto , com João Paulo II, é que o mundo deu um passo atrás. A minha mãe, que é católica praticante, que se converteu ao cristianismo, ou melhor, ao catolicismo ( nasceu judia) , bem tenta , desde sempre, dar-me exemplos de evolução com este papado...mas continua sem ter muito para me dizer.
A minha opinião nada tem a ver, acreditem por favor, com a minha opção judaica de vida. ( Nasci católica , fui baptizada e até fiz a primeira comunhão ( fui forçada, mas fi-la )
Tem a ver com justiça e tolerância. Tem a a ver com espírito . Tem a ver com entreajuda .
João Paulo II é, sem dúvida, sábio. Mas, para mim, não representa a beleza da natureza humana ligada à religião. É demasiado hermético e pouco sensível aos problemas do dia-a-dia dos cristão; e de todas as pessoas em geral. É quadrado.
É mais papista que o Papa ( que expressão idota neste caso...).

Tenho de reconhecer, claro, que foi no pontificado de João Paulo II, que o Estado de Israel foi-finalmente- reconhecido ( 94, julgo eu); que foi ele, João Paulo II, quem pediu desculpa aos judeus pelos dois mil anos de anti-judaismo cristão. Quem teve a coragem de entrar numa sinagoga e de pedir perdão pelo fechar dos olhos do Vaticano, e dos catolico-cristãos em geral, durante o nazismo.
Sim, ele fez isso. É bonito.
Mas, penso-o com todas as minhas forças, que não fez mais do que a sua obrigação. Fez o que se impunha a uma religião que se caracteriza como humanista e justa. Foi tarde, e a más horas, mas foi feito. E por ele.
Mas quando se faz justiça, o agradecimento é escusado. Mesmo que fique bem agradecer.

Não sei. Não simpatizo com este Papa.
Agora, o que acho bem, é ele continuar a sua missão até ao fim. Está velho e doente, é certo, mas isso só prova que é humano. E não se deitam fora as pessoas só porque estão velhas. Enquanto tiver forças deve continuar, concordo.

Mas não é porque vai morrer -como todos nós- que lhe vou fazer odes exaltadas.
Nem a ele, nem a nenhum homem -seja de que fé for,incluindo a minha- que utilize a religião como instrumento político. como instrumento político.

Mesmo sabendo que é assim que o mundo é...



Ana [10/16/2003 12:35:00 da tarde]