Crónicas Matinais

[ quarta-feira, novembro 26, 2003 ]

 

Bom dia!

Tenho recebido muitos e-mails a propósito do que escrevi na segunda-feira. Uns -felizmente a maioria- simpáticos e solidários. De gente que entende e que não finge que não sabe ou não vê. Outros claramente a insultar-me. É a democracia.

No entanto, queria explicar o seguinte: obviamente que os casos que relatei são -pelo menos para já- a excepção e não a regra; ou seja: Não há movimentos organizados, que incluam milhares de pessoas; e quando digo que são diários, não quero dizer que aconteçam em todas as ruas e em todas as horas. O que se passa é que há, de facto, em Paris-que é a realidade que conheço- dois grupos de indivíduos que se divertem a fazer isso. Um dos grupos é composto por vários desocupados franceses, ultra-nacionalistas e racistas. Sim, um grupo de "skinheads". O outro é composto por rapazes e raparigas de origem árabe. São mais novitos e muito intolerantes. Mas não representam -de todo!- a comunidade árabe e muçulmana de Paris. São apenas parvos, ignorantes e sedentos; são violentos e mal-educados. Um grupo que bate nas raparigas muçulmanas que não usam o véu e que as insulta. Eu tenho o azar de utilizar as mesmas linhas de RER ( comboio regional ) e de Metro que eles. Por isso vejo mais actos anti-semitas.
Além disso,relativamente perto da zona sossegada e simpática onde eu vivo, há uma "cité" . Uma espécie de bairro social , degradado, e cheio de gente que se sente excluída ;porque se exclui. Ora , uma percentagem de jovens selvagens que lá vivem, diverte-se a chatear a zona calma onde eu vivo. Especialmente os judeus e há lá muitos.

Por isso sou testemunha de tantos casos concretos de anti-semitismo. Mas estes casos, preocupantes e gravíssimos, não são praticados por norma. Para já, são excepções. Mas é preciso estar atento e evitá-los. Daí as recomendações do rabinato de Paris.

Outra coisa: Quando eu expliquei que , naquela vez em que seguia de comboio com dois judeus que foram cuspidos e insultados, nem eu nem eles reagimos, foi apenas devido às circunstâncias. Eles eram uns 15 e nós três. Todos sabemos, porque ou passamos por isso, ou já vimos, que se reagirmos eles vão agredir-nos e acompanhar-nos até à nossa paragem de saída. E, fora do comboio, tudo pode acontecer. Claro que se pode chamar a polícia, ou alertar o condutor- accionando a paragem de emergência- mas isso não costuma adiantar muito. Primeiro porque a polícia demora a chegar ; depois porque até a ajuda chegar...muito pode acontecer também. Não há heróis, percebem?

Contei esses episódios apenas para exemplificar que- em pleno século XXI, mais de 50 anos depois do nazismo - ainda é preciso estar atento à violência contra os judeus. Claro que não a há só contra os judeus; mas era dessa que se falava, ou fala - porque o assunto é cada vez mais actual.

E agora que está tudo mais bem explicado ( espero eu ) vou pensar em alguma coisa mais agradável, como por exemplo, a grande vitória desta noite do FCP frente ao Partizan. Porque é dessas alegrias que também se faz a nossa vida. E nos permite sorrir e estar de bem com a vida. Bom...há muitas outras coisas, claro; mas agora não tenho tempo para falar nem de Amor, nem de sexo , nem de culinária e nem de tabaco!

Ana [11/26/2003 10:29:00 da manhã]