Crónicas Matinais

[ segunda-feira, novembro 03, 2003 ]

 

Isso é que eu gosto de "literatura infantil". [ coloco aspas porque acho esta classificação um bocado palerma ]

Quando era miúda ( no século passado ) , pelava-me pelas histórias de Monteiro Lobato. Foi ele quem me aguçou o apetite por Cervantes e pelos Gregos, por exemplo. E, depois, por causa do " Sítio do Picapau Amarelo". Que saudades!
Mas, foi inevitável, o meu gosto pela literatura infantil consumou-se com os franceses; e mais tarde com os anglo-saxónicos.
É que a literatura infantil começou -assim mais à séria- com Charles Perrault. No século XVII. Não sabeis quem é? Pfff
Então não se lembram do "Gato das Botas" ou da " Gata Borralheira" ?
Gosto tanto dele, i.e., das histórias maravilhosas dele, como dos manos Grimm ; ou de Andersen. Eu tinha-as em livro ( comecei o meu francês com essas histórias ) , na língua original e depois em português. E até tinha em discos, vinil, mas em português do Brasil.
O Fénelon, do mesmo século, também era( é) muito bom! Como é que uma criança com 3 ou 4 anitos, podia entender as maravilhosas aventuras de Télemaco ( o filho de Ulisses) se não fosse ele? Muito viajei eu...
E o La Fontaine? Papei as fábulas todas e lambi os dedos. Ainda hoje...
Já nas mulheres , foi outro fartote:
Mme. D'Aulnoy , condessa , deu-me, por exemplo: " O Delfim" e " A Ave Azul". Lindo...
Mme. Leprince de Beaumont apresentou-me " O Príncipe Encantado" e " A Bela e Monstro" ( o original), e " O Manual da Juventude". Ainda as leio.
Havia outro francês, discípulo de Rosseau, que até muitos consideram o fundador da dita literatura infantil , que , entre outras coisas belas, escreveu a maravilhosa colecção de contos :" Literaturas Escolhidas". Falo de Berquin.
Mais tarde, e depois de ter descoberto as maravilhosas histórias de Dumas, conheci Saint-Éxupéry ...e apaixonei-me pelo "O Principezinho"
Claro que, em inglês, os meus primeiros amores foram as " Viagens de Gulliver" de Jonathan Swift e o " Robinson Crusoe" de Daniel Defoe. E Dickens, claro, com o " David Copperfield". Ai...e aquele escocês , Mattew J.Barrie que me encantou com o " Peter Pan" ? Já da "Alice no País das Maravilhas" , de Lewis Carrol...não gostei tanto. Mas devorei, na altura.
Mas, confesso, o primeiro que me fez chorar foi Mark Twain. " Tom Sawyer"...só de me lembrar fico com uma lágrima no canto do olho. Não porque era demasiado triste, mas porque eu queria tanto ajudá-lo que , lembro-me bem, até cheguei a roubar doces e bolachas da dispensa lá de casa, para lhe dar. Foi aí que descobri que queria mudar o mundo.
Felizmente, depois, passou-me.
Também me fartei de chorar com " O Último dos Moicanos " de Fenimore Cooper. Que depois me fez querer ser pirata com o " O Corsário Vermelho".
Claro que , depois, a minha paixão passou a ser " Kim". Sim, de Rudyard Kipling. E até , graças também ao" Jungle Book", deixei de querer ser pirata , para querer ser uma voadora. Mais do que ser a Sininho, eu queria era voar , de liana, em liana, pelas selvas.
Todos esses livros me fizeram acordar para a vida. Já para adormecer, o escolhido foi Andersen. A minha mãe leu-me tudo desse dinamarquês genial. Enterneci-me com " O Patinho Feio"; "Os Sapatinhos Vermelhos"; " A Pequena Vendedora de Fósforos"; " O Soldadinho de Chumbo", etc. Isso sim, tudo isso é magia.
Assim como o " Pinocchio" de Collodi. E o " Feiticeiro de Oz" de Frank Baum. ( Mas odiei o filme, aliás, nunca um filme me provocou tantos pesadelos.)
Ah...e o " Polichinelo" de Octave Feuillet ; essa e muitas outras histórias dele! Magníficas; todas.
Depois os russos: Tchékhov com os contos russos; Puschin , e o terno" O Pescador e o Peixinho". Mais Ivan Krylov.
Enfim. Foi disto tudo que a minha infância foi feita. Disto e, em português, de Sophia. Só.
Pode ser triste, mas é verdade. Aliás, confesso que conheço mal a literatura infantil Portuguesa. Para mim só há Sophia.
E mais um ou outro conto tradicional português, de cuja autoria a minha memória não guardou o rasto. Se calhar porque não há autor certo; não sei.
Não digo que não haja histórias maravilhosas; deve haver. Eu é que não conheço. Defeito meu.
Bom, lembrei-me disto, de falar sobre estes livros ( meus!), porque encontrei no outro dia, a pesquisar na internet, uma espécie de resumo sobre a literatura infantil. Li o texto e fiquei parva! Não só porque o senhor que a escreveu seguiu a ordem que eu teria seguido, se fosse eu a escrevê-la ; mas também porque me fez perceber quão rica foi a minha infância. Quão completa a esse nível.
E prova-me , mais uma vez, que sem bases, de facto, nada se faz. Bem.

E pronto. Resta só dizer que não mencionei ( e sei que muitos estavam a perguntar por ela ) a Condessa de Ségur, porque os contos dela, apesar de excelentes, me fazem dores de barriga. Isto porque me lembro de uma -excuse me my french- caganeira diabólica, que apanhei com uns 5 anitos, ao acompanhar a leitura dessas histórias com dois quilos de caramelos , escondida no sótão da minha avó . Sim, aconteceu uma tragédia ( os intestinos de uma criança são muito pouco educados ) e -qual cão de Pavlov- ao mencionar sequer a talentosa senhora...tenho de rumar ao "palácio das necessidades"!...

Ana [11/03/2003 01:12:00 da tarde]