Crónicas Matinais

[ quinta-feira, novembro 13, 2003 ]

 

Mexilhões e outras saudades


Estive a ouvir esta manhã, na Ant 1, a emissão especial que fizeram desde a Galiza. Porque faz hoje um ano que o « Prestige» deu cabo de tudo.
Eu adoro a Galiza e adoro os galegos. Aliás, quando –menina e moça – ia lá de férias , desde a minha casa de férias em Moledo do Minho, sentia que a Galiza era tipo Viana do Castelo, Ponte de Lima ou Caminha, ou seja, mais uma cidade portuguesa e bonita ali ao pé.
E é.
Tive lá um amor. Namoradito , platónico, claro, que se chamava ( e ainda chama) Curro. Tinhamos ambos uns sete anitos.
Eu chegava a Moledo , ficava feliz durante a primeira semana, mas depois queria ir à Galiza. A S. Xenxo.
Primeiro porque veria o Curro; depois porque podia comer o que mais gosto: mexilhões!!!
Não vos passa pela cabeça como eu gosto de mexilhões. Especialmente os da Galiza, claro. Mexilhões, cozidos só com sal e água do rio ; e um prato , bem cheio, de pimentos de Padrón a acompanhar. Mais nada.
Era ( e aposto que ainda sou ) capaz de me alimentar só com isso durante meses! Só de pensar a minha boca enche-se de água...
O Curro é neto de pescadores. De manhã, bem cedo, eu descia à praia ( num vilarejo perto de S.Xenxo ) e lá estava o Curro a brincar com conchas e pedaços de rede que os barcos do avô dele, e dos companheiros, deixavam para trás. E lá ia eu ter com ele, a dar-lhe a mão e a pedir-lhe que me guiasse pelas rochas, à procura de lapas que depois comeríamos cruas. A mãe do Curro trabalhava na fábrica de pescado. Chamava-se assim.
Em casa dele havia sempre muito peixe e muito marisco. Eu, às vezes, comia com ele. A minha mãe, que adora aquela família, deixava-me ficar com ele a almoçar. Uns comiam peixe frito, outros pulpo...eu queria sempre a mesma coisa : mexilhões!
Traziam-me sempre uma grande panelona a fumegar, cheia de mexilhões gordos, suculentos e saborosos. Dizem que , uma das vezes, cheguei a comer -sozinha- uns cinco quilos deles. Não me admira porque, ainda há pouco tempo, numa daquelas tardes em que tudo parece mau e triste, dei comigo a comprar duas caixas de mexilhão , cada uma com três quilos, e, quando cheguei a casa, cozinhei logo uma. E duas horas depois a outra. [ descansem, o mexilhão não engorda. ] Mas o sabor não é o mesmo. Nunca é o mesmo. Só lá.
Não há mexilhões como os da Galiza. Não há, pronto.
E depois veio o «Prestige» e fodeu tudo.

Ana [11/13/2003 05:46:00 da tarde]