Crónicas Matinais

[ terça-feira, novembro 04, 2003 ]

 

Só que nem sempre me apetece ficar calada. Porque quem cala consente.

Imagino que o barrete que vou referir, poderia ser enfiado em mais cabeças; mas eu só comento opiniões de pessoas que, de alguma forma, me merecem crédito. Desculpem lá a frontalidade mas é assim mesmo.
De maneira que , esta manhã, pela fresca, ao fazer a minha ronda dos blogs que eu gosto de ler sempre que posso, fui ter ao blog de Paulo Gorjão. Gosto de o ler.
Mas, comentando aquela sondagem encomendada pela Comissão Europeia , em que os inquiridos consideram Israel a " maior ameaça à Paz mundial", Paulo Gorjão , não concordando com a ideia de "maior ameaça" considera, no entanto ,e cito:«Israel nao sera' uma ameaca 'a paz mundial, mas e' certamente um factor de instabilidade internacional».
Sim senhor. [ ver, no Bloguítica os posts 811 e 812 ]

Ora, eu pergunto a Paulo Gorjão - e a outros que pensam como ele - se o melhor, então, não é acabar de vez com o Estado de Israel? Podia fazer-se assim uma espécie de peditório mundial ( o Zyklon B está pela hora da morte ) , que seria depositado nas contas dessas humanitárias organizações pacifistas, como o Hamas, por exemplo . Depois, os mais preocupados com esse factor de instabilidade- que é Israel- alistavam-se nas fileiras desses movimentos e ajudavam a explodir autocarros e cafés, a ver se o problema acabava mais depressa. Tudo por questões humanitárias, claro.

Ok. Ok. Outro exemplo:
Para que o mundo ficasse mais seguro , i.e., para que se acabasse com esse terrível factor de instabilidade -que é Israel, recorde-se - faziam-se passeatas e vigílias, exigindo aos israelitas que -quais cristãos novos- dessem a outra face. Se fosse preciso fazia-se isso por decreto.
De maneira que por cada atentado bombista, cada israelita que sobrevivesse, tivesse de ir ter com a mãe, ou o pai, do homem/mulher bomba, e lhe oferecesse o resto da sua família, para que pudesse ser estraçalhada também.
Seria perfeito. Se Israel não retaliasse , deixaria de ser esse perigo mundial, que é agora, e todos poderiam viver felizes para sempre!

Agora ainda mais a sério: Eu não nego os exageros e a violência feroz do governo Sharon. E não nego porque , não só não sou cega, surda e muda, como já os vi. Com estes.
Levantei o meu cu da cadeira e fui lá. Não faço análises por satélite.Nem por interpostas pessoas.
Mas fico realmente doente, quando se invertem as coisas. Deliberadamente.
O que está em causa não é o povo da Palestina. Esses , juntos com os israelitas , são as vítimas.
O que está em causa são as acções terroristas; feitas por terroristas. Para provocar terror.
Terroristas esses que usam e abusam do povo palestiniano, que o usam como escudo humano, para , depois, quando as tropas israelitas os tentarem apanhar, matarem o maior número de civis. Esses terroristas não se escondem em bunkers nas montanhas. Metem-se nas casas do povo. Para fazer mais "mártires".
E a violência é uma bola de neve. Tu matas-me o pai, eu mato o teu irmão. Chama-se Sobrevivência.
E agora, o Paulo, ou outra pessoa qualquer, pergunta: « sim, sim, mas isso funciona para os dois lados.» E eu respondo: Pois funciona, mas o problema é que matar, ou tentar matar, um terrorista é um acto cirúrgico. Já fazer explodir autocarros, cafés e sinagogas não é. É Terrorismo.

O nosso mundo é uma merda. Nós , humanidade, somos uma merda. Mas a merda tem hierarquias e prioridades.

A prioridade de qualquer ser humano é viver. E fazer viver os seus. Ora a prioridade de um terrorista é matar. E fazer morrer os seus e os outros, ou seja todos os que se atravessarem no seu caminho.

Se o meu amigo for assaltado, coloca lá na sua casinha: alarmes, muros e compra um cão.
Se o meu amigo vivesse em Israel faria o mesmo.
Só que , em Israel, os alarmes e os cães não resolvem nada. Percebe?

E se alguém disser que o meu amigo , por se proteger, é uma ameaça mundial...o meu amigo ficava doente não?
Ou, para maquilhar a coisa, dissesse que é « certamente um factor de instabilidade internacional» era igual, ou não era?

Agora, numa coisa concordo consigo e, por isso, volto a citá-lo : «O pior cego e' aquele que nao quer ver ».

De facto!


Ana [11/04/2003 10:53:00 da manhã]