Crónicas Matinais

[ segunda-feira, fevereiro 02, 2004 ]

 

Chega de brincadeiras.

No dia seguinte ao mais recente atentado em Jerusal?m fui rezar com o rabino que me guia e aconselha.
Fui falar-lhe tamb?m por outros motivos, mas tamb?m por isso.
N?o vou mais longe a prop?sito de mais esse atentado cobarde e vil , porque j? muito foi dito e mostrado. [ Obrigada, Nuno Guerreiro ! Obrigada ,Carlos ! Obrigada, Alberto Gon?alves ! ]
O que quero dizer ? o seguinte: Que a hist?ria se repete, todos o sabemos. Mas temo que o fa?a de forma c?lere..
As reac??es a mais um atentado cobarde e vil, foram as do costume: consterna??o e dor, por parte dos que sabem -realmente - o que se passa e o que tudo isto significa; indiferen?a ou ent?o at? alguma satisfa??o ( doi-me escrever isto, mas ? o que realmente sinto ) por parte de quem julga certo matar tudo e todos, em nome ...n?o importa de qu?.
Portanto a hist?ria repete-se. Se n?o ? de uma forma ? de outra. Independentemente da justi?a da exist?ncia de um Estado Palestiniano - e essa justi?a ? total!- a forma como ela ? "negociada" pelos movimentos terroristas e armados , locais, ? desumana, cruel e assassina. Quem n?o perceber isto n?o percebe nada.
Os atentados contra israelitas e contra judeus j? s?o t?o aceites, pelos que n?o percebem, nem sabem, nem querem, ali?s!, que ? como se de jogos de computador se tratassem.
Muita morte, muito sangue...game over.
No outro dia, ? conversa com uma colega que tamb?m n?o sabe nem quer saber (e que me diz que n?o gosta de judeus porque os judeus se defendem sempre uns aos outros!!! ) o que ? que est? em causa com esta viol?ncia toda contra Israel e contra os judeus, essa colega, com sinceridade, dizia-me tamb?m que ? normal que a simpatia "ocidental" se volte para os palestinianos, porque eles at? t?m de utilizar as crian?as para se defenderem.
Reparem : ?at? t?m de?.
O que me leva a temer que a hist?ria se repita -em breve- , ? este tipo de argumento retorcido. Uma crian?a n?o pode em circusnt?ncia alguma ser utilizada como baluarte e, como ? o caso, como carne para canh?o.
? sso que leva tanta gente, pretensamente bem informada , a defender com unhas e dentes , n?o o povo palestiniano , mas os movimentos terroristas locais, que utilizam crian?as e jovens como operacionais.
Depois aparecem as imagens desses meninos soldado, desses terroristas mirim que, sem saber como, s?o obrigados a lutar de armas na m?o. Que s?o educados a odiar desde o ber?o. Que come?am pelas pedras e em seguida passam ?s armas e aos explosivos. ? preciso diz?-lo. Essas crian?as , esses jovens, por culpa dos adultos b?rbaros que os utilizam, s? n?o matam se n?o puderem. So n?o ferem se n?o puderem. As imagens desses jovens, cruel e injustamente, apagam os horreres de um autocarro destruido e de dezenas de corpos espalhados. Esta ? que ? a realidade. As raz?es , os porqu?s, as origens, s?o indiferentes. Custa muito ver crian?as e jovens a morrer, claro! ? cruel. Mas isso n?o pode apagar todos os outros horrores.
E se eu falo de crian?as, de jovens, ? porque quero lembrar que, actualmente, a maioria dos homens e mulheres bomba s?o muito, muito jovens. Tamb?m eles foram educados no ?dio.
E eu pergunto-me: que esp?cie de gente considera a morte de outros mais importante que a sua pr?pria vida?
? esta a filosofia que merece ser seguida? ? essa a justi?a?
Uma das raz?es para a cegueira de muitos ? esta; mas h? outra, porventura muito mais importante:
O ?dio aos judeus , por parte de certos ?rabes e certos de mu?ulmanos, ? muito mais recente do que o ?dio aos judeus por parte dos ocidentais.
E ? por isso que, nesta balan?a envenenada, o prato ocidental - grosso modo- pende para qualquer acto cometido por quem combate os judeus.
No fundo, o nazismo foi apenas uma gota. H? muitas mais prontas a cair sobre o "eterno inimigo".
N?o vou mais longe, basta relembrar a inquisi??o na Europa, nomeadamente na Pen?nsula Ib?rica. Est? enraizado de tal forma, esta forma de ver o povo judeu, que tudo se justifica...desde que seja contra eles!
Sinceramente, acho que esse ? que ? o bus?lis da quest?o. A simpatia pela viol?ncia dos terroristas vem depois por acr?scimo. De cada vez que um indiv?duo justifica um acto b?rbaro contra os israelitas, imagino-o como um oficial do santo-of?cio. Pronto a acender uma fogueirinha ou a emparedar uns quantos judeus vivos. A cantar o ? ? tempo volta para tr?s ?.
E por falar em tempos idos:Portugal.

?Mais tardia que em Espanha , a Inquisi??o chegou a Portugal com a Bula Cum ad Nihil Magis assinada pelo Papa Paulo III, em 23 de Maio de 1536. Em 22 de Outubro desse mesmo ano, a cidade de ?vora assistiu a uma cerim? nia solene, na qual esteve presente o rei D.Jo?o III, destinada ? ? prega??o p?blica? da Bula.
Na mesma altura, um dos Inquisidores entretanto nomeados fez ler um edital concedendo trinta dias de gra?a a quem livremente confessasse os seus erros de juda?smo ( e tamb?m de feiti?aria , ou de pr?ticas das seitas de Lutero ou Mafoma).
Quase um m?s depois, novo edital identificava erros e delitos contra a f?. (...) Identificados estavam os pecados. Restava,ent?o, apresentar os pecadores.
Tudo come?ava com uma suspeita ou uma dela??o.?s vezes, a desgra?a abatia-se sobre uma aldeia inteira, e a vida de todos era investigada sem que houvesse tempo para a fuga.Ou ent?o, se fugiam, havia presun??o de culpa.
(...) Quando estavam nas celas , aos prisioneiros era proibido qualquer queixume. Nem gritos, nem choro, nem ?suspiros altos? que pudessem alertar os outros companheiros de c?rcere. As infrac??es eram punidas com severidade.O isolamento devia ser total para que uns n?o dessem ?avisos? aos outros, para que ningu?m soubesse do que se passava nos interrogat?rios e se pudesse preparar e confundir os inquisidores.A todos se exigia sossego e quietude como se o tempo estivesse estagnado(o bold ? meu ).(...) Muitos desses torturados n?o aguentavam o tempo de pris?o, as frequentes idas ? Mesa e, quando o processo era dado por conclu?do e estabelecida a senten?a, j? n?o havia corpo vivo para conduzir ? fogueira. Pouco importava. Desenterravam-se os ossos e queimavam-se. Se o acusado lograva fugir, ardia o seu retrato.Escapar ? que n?o podia , porque a Inquisi??o tinha longo o bra?o que segurava o gl?dio de um poder incomensur?vel que n?o se detinha com a morte. A ela at? os pr?ncipes obedeciam porque nada mais perigoso para quem det?m o poder do que a inimizade dos zeladores dos bons costumes ( o bold ? meu ).
Entre os anos de 1540 e 1821 foram processados mais de 40 mil pessoas pelos tribunais de Lisboa, ?vora e Coimbra.
O primeiro auto-de-f? ocorreu em Lisboa , no dia 20 de Setembro de 1540, o ?ltimo na mesma cidade, em 1761.?

N?o sei, mas parece-me sempre actual este relato hist?rico de Maria J?lia Fernandes, na pequena maravilha que ? o livro : ?Passos na Areia?; Contexto, Editora, 1996. E ajuda a explicar muita coisa...





Ana [2/02/2004 01:21:00 da tarde]