Crónicas Matinais

[ quarta-feira, fevereiro 25, 2004 ]

 

Já é costume. Por isso não me admira por aí além que alguém, em pleno séc.XXI, afirme que o Holocausto é uma invenção.
Assusta-me; assusta-me sempre, mas não me causa admiração. Foi o que fez -obrigada Francisco pela chamada de atenção e pelo link - o pai de Mel Gibson.
Mas as posições do senhor Hutton Gibson não são novas. Ele sempre as defendeu e o facto sempre foi conhecido.
Claro que, desta vez, foram buscar o senhor por causa da iminente estreia do filme do filho; a tal « Paixão de Cristo».
Hutton Gibson é, de facto, um anti-semita primário. É-o desde sempre. É também um católico ultra-conservador. O filho Mel é um católico conservador também -não reconhece, por exemplo, o concílio Vaticano segundo, onde os judeus foram ilibados de culpas pela morte de Jesus Cristo que era, recorde-se, um judeu. Mas se o pai expressa em palavras esse seu ódio doentio aos judeus, o filho não o faz. Só que, como o mesmo confessa, a temática da morte de Jesus Cristo obceca-o; tanto que desde há 12 anos pretende fazer este filme e, mesmo não tendo o apoio da indústria cinematográfica , fê-lo com o seu próprio dinheiro -25 milhões de dólares- , recorrendo a uma produtora e destribuidora independentes. Então se não o expressa por palavras, nada mais eficaz do que fazê-lo por imagens. Surge então este filme.
Já se sabe que o objectivo da família Gibson é mostrar a culpa dos judeus na morte do "messias" católico-cristão e isentar de culpas os romanos, especialmente Pôncio Pilatos , que o Gibson filho apresenta como um fracalhote sem personalidade , influênciado pelos rabinos judeus; um cobardolas que se limita a executar ordens dos semitas.
Até aqui , eu, como devoradora de cinema, só posso afirmar: « ok, cá está um filme idiota,embora perigoso,mas lá está, é apenas ficção; não se baseia, como a maior parte dos filmes , em factos reais.»
Mas não. Este filmezeco é apresentado como a verdadeira história. Como se, passado tantos e tantos anos, um novo "messias" , munido de câmaras e efeitos especiais, viesse trazer a luz da verdade ao mundo.
É um filme perigoso, reaccionário e anti-semita. É.
Mas o que me chateia é que, ao falarmos tanto da ficção dos Gibson , estámos a contribuir para o seu sucesso. Para que mais pessoas o vejam. Só que , de facto, deixar passar em claro uma mentira tão atroz , um branqueamento tão grande da verdade e da história , não pode ser.
Nem toda a gente é parva, é certo, mas há uma imensa parte que o é. Se já é dificil , nos dias de hoje, acabar com os preconceitos de antanho em relação aos judeus, não ajuda nada deitar mais achas para a já imensa fogueira anti-semita que grassa por este mundo fora.
É por estas e por outras que sinto ódio por todos os ultras. Sejam de que religiões forem.
É que esta questão não é entre católicos e judeus: é entre doentes mentais e gente sã.
E mais não digo porque, ao contrário do Nuno Guerreiro e do Francisco José Viegas, tendo a peder a calma, e a educação, com qualquer filho da puta anti-semita.E já falei de mais.

Ana [2/25/2004 11:18:00 da manhã]