Crónicas Matinais

[ terça-feira, fevereiro 24, 2004 ]

 

Técnicas de Sedução

Foi há pouco, há poucochinho. No bar cá da chafarica.
Ela toda recatada , sentadinha com as mãos no colo, olhar ausente...À frente dela uma chávena de café.
Ele ,sorriso jucundo, a entrar em palco abrasado por um sentimento daqueles mais fortes. [ Eu pensei comigo: é tudo tesão; o gajo anda à caça. Andava.]
Galhardamente fala a toda a gente;ele. Ela olha para ele e cora. [ E eu cá comigo: olha, esta quer ser caçada.Queria.]
O rapazola pede a bicazita e algo para mastigar , abanca na mesa ao lado da dela. E eu , com as minhas duas colegas, a topá-los.
O moço diz uma graçola –dirigida a todo o estabelecimento- e ela também se ri. Qualquer coisa em relação ao frio. [ E eu a pensar: pois, pois, e quem diz frios diz calores...]
Ele enrola mais umas patacoadas e voltam todos a mostrar os dentinhos. Ai que risota!
E eu a topar a rapariga que não só mostrava os dentinhos, mas também deixava a posição recatada e mostrava as coxas , cruzando as pernas espremidas dentro de uma saia justíssima e curta.
O malandrote também a topou. Atira mais qualquer coisa com chiste ( onde eu estava ouvia mal ) , mais gargalhadas entrepitosas da assistência e ele a mirar a presa; a ver se ela se dava também ao riso. Dava. Então não dava!
Ele, já com qualquer coisa a sarandilhar-lhe dentro da boca ( acho que era um pedaço de tarte; blaghhh falar com a boca cheia! ) diz mais qualquer coisa pretensamente espirituosa e hilariante e encara-a . Ela , coitadita, estava-se a rir , mas ao vê-lo a olhar só para ela...engasga-se !
E então foi vê-la muito aflita, praticamente a espumar-se , com a cara arroxada, a tossir , a tentar esconder o rosto mas ao mesmo tempo aflitíssima e preocupada em continuar a respirar.
Nisto o herói vai-se a ela , bate-lhe ns costas –com alguma violência pareceu-me- e a moça debulha-se em tosses e líquidos; é que isto aconteceu enquanto ela dava um golinho no café...
Ele , com a boca ainda cheia, e quiçá movido pela mais pura solidariedade, também começa a tossir.
É do frio! –dizem uns que a tudo assistem . O gajo estava a conter o riso e não aguentou mais , penso eu , pérfida como sempre...
Ela, entretanto, está quase recomposta e aflige-se por ele. De facto ele já não tossia: ele estava completamente desesperado! Lá aquela coisa que ele estava a comer deve-lhe ter ficado encalhada na garganta e o rapaz lutava ali – bravamente- pela vida. Desata ela então a dar-lhe palmadas nas costas e nisto...resulta! Ele começa a respirar –ainda a custo é certo, mas a respirar...mas não sem antes lhe ter vomitado os restos do lanche em cima. Da rapariga salvadora, pois então!
E assim, o que poderia ser uma belíssima história de amor ... cheira-me que nunca o virá a ser.
É que ambos deram corda aos sapatinhos, rostos mortificados, e ala que se faz tarde! E cada um para seu lado, claro.
Terminada a cena grotesca, disfarçámos as três o riso , e tentamos conversar como se nada se tivesse passado. Mas foi impossível.
Diz a minha colega Carol : « Ah...ela cuspiu o café para cima dele, não foi?»
«Foi.» Respondemos.
« E depois ele vomitou em cima dela...» Resumiu a Natacha.
«Pois foi.» Concordámos.
«O amor é uma coisa tão bonita!» Digo eu. «E repartir, repartir, assim, os fluído, também é muito bonito.» Acrescento.
«É, é.» Dizem elas.
Levantámo-nos .
«Se fosse comigo...acho que me enfiava em casa durante um ano.» Diz a Carol , já a segurar a porta do bar.
«Eu matava-me!» Diz a Natacha.
«Pois eu mandava-lhe a conta da lavandaria!» Digo eu fechando a porta atrás de mim...

Ana [2/24/2004 05:05:00 da tarde]