Crónicas Matinais

[ quinta-feira, fevereiro 19, 2004 ]

 

Tenho um segredo para vos contar. Aproximem-se. Mais. Mais um bocadinho. Assim está bom:
Já traduzi uma boa parte do "Aubade" de Larkin. É preciso é ter paciência.

Agora outra coisa:Filmes. Este em particular 21 Grams

Tem dentro o Che dos States-Sean Penn ( um matemático muito doente ); Benicio Del Toro ( um ex (?) criminoso renascido, que julga ter encontrado em Jesus a salvação ) e Naomi Watts ( uma mulher-esposa-mãe enlutada ) . Este é o pelotão da frente. Penn está , como quase sempre, exemplar. E exemplar é, no mínimo, o que também se pode dizer do desempenho de Del Toro. Já a Watts...é muito, muito fraquinha. Não vos vou contar a história porque se não o filme não vos vai saber tão bem. É cinema mosaico, saltitante...como eu gosto. Apesar de ter lá dentro também a Charlotte Gainsbourg , excelente actriz, mas que me tira do sério. E por acaso também tem dentro Eddie Marsan , que faz o duro Reverendo John, que é bastante spooky. Enfim, sem vos contar a história , gostava de dizer uma coisa que, pelo que já li na maioria da críticas , passou ao lado.Ou então sou eu que não percebo nada , o que até nem é nada de novo. Apesar de todos os dramas das personagens, e são muitos e intensos, eu vi o filme como uma espécie de paródia ao "excesso" de fé. Aspo excesso, porque , para mim, a fé -a verdadeira - não tem limites. Mas o que nos turva a mente e nos envolve na irrealidade , e que muitos chamam fé, não o é; é um engano, uma maquilhagem. Uma desculpa má de um enredo pior. O filme não pretende, penso eu, marcar posição em termos religiosos. É até apresentada , a religião, como um quase pormenor. Mas faz pensar sobre. A mim fez e muito. Fez-me pensar sobre enganos e sobre redenções. O eterno bem e o eterno mal. E nesse limbo entre um e outro onde todos nós vivemos. Todas as pessoas que viram o filme e com as quais conversei, e instados a escolher um herói , fazendo de conta que o filme é uma história real, escolheram a personagem de Del Toro. « Pobrezinho, no fundo uma boa pessoa, uma vítima pronta a morrer para se redimir...» etc.
Eu cá sou mais o Penn. O que é que isso dirá de mim?
Ide lá ver o filme, se fizerem favor, e ajudai-me a perceber.

Ana [2/19/2004 11:19:00 da manhã]