Crónicas Matinais

[ quarta-feira, março 17, 2004 ]

 

Porque é que eu espero que o futuro não esteja só nos jovens


Fui tomar um chá com uma colega francesa ,há bocado, ali ao café da esquina. Nisto chega a filha adolescente da minha colega,que tinha bombardeado a mãe com telefonemas até a senhora , vencida pelo cansaço, lhe dizer onde estava.
Chega a mocita,que conheço há quatro anos, andrajosa,cabelo sem ver champô pelos menos desde o Natal, lenço à Arafat; enfim, o costume na "juventude rebelde e inconformada " de hoje.
Sem mesmo dizer boa tarde, a miúda estende a mão à mãe: quer porque quer 50 euros. A mãe bem insiste em saber para que é que ela quer o dinheiro , mas ela estende a mão e não quer conversa. Como sempre fui uma apaixonada pela antropologia , decidi meter a colher e convidei a miúda para se sentar e tomar qualquer coisa connosco. Provavelmente por estar esganada de fome ( a mãe diz que ela , tirando os charros, não se alimenta de nada; acha as refeições , pelo menos em casa, burguesas ) diz que sim, que come uma sanduíche de queijo e bebe uma cerveja. Era o bebes! Mandou-se vir a sanduíche e um sumo de laranja.
A Carol tem 16 anos. É rebelde, mal-cheirosa por opção e é também altermundialista ou lá como se chama essa merda.
Sem que eu abra a boca, a miúda começa a meter-se comigo por causa da minha estrela de David ; da que tenho no colar que uso desde que me conheço por gente.
Como a mãe estava presente, achei melhor respirar fundo e não lhe assentar duas valentes bofetadas no trombil...( sim, sim, eu também sei falar à "jovem"...)
Mas puxei pela língua da criatura, em sentido figurado, claro! Tortura, para mim, só como último recurso...
A miúda, qual robot programado , desata a vociferar contra os judeus; que matam os inocentes e tal; que só querem é dominar o mundo e o diabo a quatro. Eu deixo-a falar, enquanto a mãe retorce as mãos e pensa « onde foi que eu errei! onde foi que eu errei!».
Engulo em seco, desvio a conversa. Pergunto-lhe o que ela pensa dos métodos dos radicais, numa palavra: do terrorismo.
Diz que acha muito bem. Que « os oprimidos têm de se defender como podem» e que há «gente que merece morrer».
Quem por exemplo, pergunto eu , temendo já o pior.
Ela responde olhando-me nos olhos e sem vacilar : « os judeus e os americanos e todos os que os defendem».
Mantendo-me calma , relembro-lhe que sou judia. E pergunto-lhe se ela também acha que eu devo morrer.
E ela responde-me de forma enigmática: « Se tiver de ser...».
E eu, apesar de já o ter ouvido opiniões semelhantes tantas vezes, na boca de tantos loucos, fiquei gelada. Uma miúda, de 16 anos; filha de uma colega minha.
A mãe, coitada, berrou com ela e ameaçou bater-lhe. Não deixei, para quê?
Antes de entrar para esses movimentos que dizem não à guerra , mas pilham, queimam, batem e destroem, a miúda era normal. lembro-me dela com 13 anos, a comer Kosher na minha casa e a achar original e engraçado.

Agora é um ser humano deplorável e do qual eu tenho medo.
Por mim e por ela.

Ana [3/17/2004 05:28:00 da tarde]