Crónicas Matinais

[ segunda-feira, abril 19, 2004 ]

 

«Antisémitisme: la parole libérée»

A semana passada a estação de televisão francesa «France 2» , passou ,no programa «Envoyé Spécial», a reportagem de Elie Chouraqui e Yves Azéroual : «Antisémitisme : la parole libérée».
Esta reportagem estava em agenda há meses, mas o tema é de tal maneira polémico em França , que antes da emissão do trabalho televisivo, a reportagem teve direito a ser visionada por políticos, advogados, e até pelo ministro da Educação francês, em conselho de ministros. E na manhã de quinta-feira, 15 de Abril, ( o programa passou nessa noite ) o próprio Primeiro-Ministro francês quis dar uma palavrinha aos autores da reportagem.
E tudo isto porquê ?
Porque , em França, a verdade continua a doer. Assim mesmo.
Várias desculpas foram apresentadas para que a reportagem fosse adiada . A equipa que a realizou falava no direito à informação . Do outro lado : que era preciso estudar bem o assunto, que a reportagem podia ser contraproducente ; que era preciso respeitar o anonimato dos protagonistas, etc.
A reportagem foi visionada até à exaustão por várias entidades. Tudo porque mostra uma realidade que os franceses preferem , não que exista, mas que não seja mostrada. Pela vergonha ; pela má memória de tempos idos ( ?) ...e porque é sempre mais fácil olhar para o lado.
Ora a reportagem foi feita em Montreuil, arredores de Paris. No centro da polémica duas escolas, dois liceus. Face a face. De um lado da rua um liceu público, oficial ; do outro um liceu judaico.
O que a reportagem mostra é o seguinte : Os alunos do liceu judaico são –diariamente- agredidos , não só verbalmente, mas fisicamente. A coisa é de tal ordem que a direcção do liceu judaico se viu obrigada a contratar seguranças privados para garantir a segurança dos alunos . E perguntam vocês : mas para os proteger na escola ? A resposta é : Não ! Para os defenderem quando eles saem da escola, para lhes garantirem a segurança até à estação de Metro mais próxima, porque esses alunos judeus não podem ir sozinhos, (aliás só podem ir em grupo) apanhar o Metro ! ! ! ! Porque se algum deles se atrever a ir apanhar o metro sem protecção, depois das aulas, arrisca-se , como acontece diariamente, a ser espancado. Nem mais. Espancado. Todos os dias acontece. E acontece hoje, como ontem. Em 2004, no século XXI. Meus amigos, isto não é ficção, percebem ?
Os autores da reportagem foram então falar aos alunos ,dos dois lados, para tentar perceber o porquê.
No liceu público, a turma entrevistada disse coisas como estas :
« Bom, eles batem-lhes porque eles andam bem vestidos ; porque têm dinheiro ; andam com calças Levi’s ...» [Nesse liceu judeu há imensos alunos carenciados, diga-se...]
ou
«Eles ( os judeus) têm a mania que só eles são agredidos e insultados ,mas também há judeus que insultam» E o autor da reportagem pergunta : « Tu conheces algum caso ? já viste um deles a insultar alguém deste liceu ?» E o aluno responde : « Bem...não!...»

Enfim. Do outro lado, numa turma de alunos judeus a mesma pergunta é feita : porquê ?

Um dos alunos diz : « Não tem explicação. São ataques gratuitos» ; Um outro afirma : « O problema é que para toda a gente o que Israel faz é culpa de todos os judeus. Os árabes estão contra o governo de Israel e nós, como judeus, pagamos por isso. »

Na reportagem é também mostrado um grupo de jovens, negros e árabes, que ostenta bandeiras do Hamas e do Hezbollah e que reclama , por outras palavras, o desaparecimento dos judeus. Dizem coisas atrozes que fazem o sangue gelar nas veias. Têm entre 15 e 18 anos. São bastante conhecidos na cidade, mas na televisão aparecem de cara tapada. Até porque, em França, oficialmente, o antisemitismo é crime.

Razões , é preciso entender as razões. Os autores da reportagem vão então pesquisar mais. Falam com « peritos». Para além do ódio milenar, de tal forma entranhado nas pessoas ( cita-se Einstein que dizia que é mais fácil compreender um átomo que um preconceito ) , os autores da reportagem descobrem que é a mediatização do conflito no Médio Oriente que alimenta o ódio ; as notícias parciais da televisão , das rádios e dos jornais. E os canais satélite. Por exemplo, um dos canais mais vistos pela comunidade árabe francesa , via satélite, é o Al-Manar. É um canal controlado , oficialmente, pelo Hezbollah Libanês. Nesse canal , e actualmente, passam dois programas que são considerados violentos veículos para incitar ao ódio os muçulmanos jovens. São dois programas que supostamente retratam os judeus. Um chama-se « Diáspora» e mostra a saga de uma família que, entre outros, tortura os seus próprios elementos. Ódio destilado , via satélite, em estado puro. O outro é o mito do costume : « Os Protocolos dos Sábios do Sião». Não foi só no século passado, e noutros anteriores ; essa fantasia continua a destilar ódio até nos nossos dias.
Há mais exemplos, mas estes já chegam, penso eu.
Em nenhum momento a reportagem é parcial. Nenhum. Limita-se a dar voz, e imagem, à realidade pura e dura.
Custe o que custar é isto que se passa em França. Quer dizer, passa-se muito, muito mais. Mas a reportagem é bem representativa.
Eu já aqui relatei, no blog, coisas que vi, senti e vivi na pele, em relação ao antisemitismo em França. Na altura cheguei a receber e-mail, e comentários, que diziam que eu inventava, que eu, como todos os judeus, tenho a mania da perseguição e gosto de me fazer de vítima.
É certo que vozes de burro não chegam ao céu , mas a paciência tem limites.
Se andarmos todos de olhos abertos é impossível não ver o que realmente acontece. O que se passa. A realidade.

Depois de vários adiamentos a reportagem foi então transmitida. Pensam que a polémica acabou ? Nem pensar. A negação continua.
Hoje,tal como ontem, em todos os jornais, podemos ler que , depois de transmitida a reportagem, o «député-maire » de Montreuil , Jean-Pierre Brard , aproveitou a visita do Ministro da Educação à cidade, para afirmar que o documentário transmitido na véspera é uma «manipulação» e que os alunos entrevistados, e passo a citar : « étaient les acteurs d’un film dont ils ne connaissaient pas le scénario.».
É óbvio que os autores da reportagem e a estação France 2 não vão deixar estas acusações passar em claro. O caso vai para a justiça e está já, de resto, entregue a advogados.
O que os autores e a France 2 lamentam é , não só a acusação baixa e torpe de um eleito da república, mas ,essencialmente ,que « en France , il soit si difficile de parler de l’antisémitisme».

Porque a verdade dói. Digo eu.

Ana [4/19/2004 12:18:00 da tarde]