Crónicas Matinais

[ segunda-feira, abril 05, 2004 ]

 

Venho, por este meio, devolver os prémios.

Quer dizer: isto, parecendo que não, aflige.
Uma pessoa diz que não, que isto dos prémios vale o que vale, ou seja, pouca coisa, em termos práticos; mas não é bem assim.
Por exemplo: desde que fui agraciada com –estes magníficos prémios – passei a andar na rua de nariz levantado e a acenar ao povo. Dir-me-ão que isso não tem mal nenhum. Mas tem.
Uma pessoa vai na rua , com os seus sacos com compras, o guarda-chuva e o cigarro acesso, ou seja, tem as mãos ocupadas, e sente a necessidade fremente, a obrigação!, de acenar às massas. Ora é uma chatice! Primeiro porque temos de parar, pôr os sacos no chão, enfiar o guarda-chuva num dos sacos- se estiver de chuva, arriscamo-nos a molhar a morcela de sangue ou mesmo os papos secos!- e só depois acenar, sempre com um sorriso e tal.
E depois há sempre a possibilidade de alguém responder! E depois? Como é?
Damos beijinhos? Bacalhaus?
E se alguém pede um autógrafo? Lá temos nós de abrir a carteira, tirar uma caneta –que invariavelmente não escreve à primeira – e rabiscar o nome do requerente mais o da gente. E há alguns que também pedem a data, sacanas!
Perde-se uma porrada de tempo, as compras ali a apanhar ar e micróbios ( há sacos que se rompem facilmente e como estão no chão...) a gente a gastar tinta e latim que , o mais das vezes, ninguém vai perceber mais tarde, ou não fosse a letra da gente... de médico.
Para além disto e o mais importante: corre-se sempre o risco de ser olhada , com desprezo, por aquele tipo de pessoas falsas e dissimuladas, que passa por nós na rua , fazendo de conta que não nos dá importância e que não nos conhece de lado nenhum mas que, no fundo, sabem tudo sobre nós ; adoram-nos , idolatram-nos, mas fazem sempre de conta que não. Em casa têm o nosso rosto em todo o lado, recortam tudo o que se diz e mostra sobre nós, os ganhadores de prémios, fazem pastas de arquivo , cortam o cabelo como a gente, imitam-nos as roupas, a maquilhagem e até os gestos. Copiam as nossas frases para pequenos papeis que transportam nos bolsos para puderem utilizá-las sempre que a oportinidade surja; põem o nosso nome aos filhos ,etc.
É essa corja que me assusta. Que me assustou ;e é pelo que conto a seguir que devolvo os prémios. Lamento mas tem de ser.
Este fim de semana, e porque sou uma tímida, uma pessoa discretíssima, fui às compras mascarada de simples, de comum mortal. Confesso que nem tomei banho para dar ainda mais realismo à coisa. Não me maquilhei e amarfanhei o cabelo num carrapito. E fui de bata e chinelos, claro.
Estava a escolher umas alheiras de caça ( pensei pedir torresmos para ser coerente , mas já não havia ) no talho do supermercado donde gasto, quando reparo que duas mulheres estavam a olhar para mim. Resignada pensei :« Pronto, fui apanhada! Depois dos prémios é impossível não ser reconhecida. O melhor é acenar .»
E lá acenei às senhoras.E Elas fizeram-me má cara. E eu pensei: « Olha que porra! Lá estão duas das dissimuladas; que me idolatram mas fazem de conta que não.» . Encolhi os ombros e acabei por pedir também uns bifinhos de perú ,que estavam em promoção.
Fui para a secção das hortaliças , e andava de roda de uns nabos quando voltei a ver a parelha, as duas mulheres. «São dissimuladas , mas adoram-me tanto que não resistem » pensei eu e lá voltei, porque sou uma pessoa boa, a acenar , provando que tenho bom coração e, no fundo, que sou um doce.
Foi então que a porca torceu o rabo. As duas dirigem-se a mim e a mais robusta, e ligeiramente desdentada, põe as mãos na ilharga e cacareja: « O que é que você quer? Pra qué que tá praí a acenar feita doida? A gente por acaso conhece-a ? »
Reconheci logo a típica negação dos fãs mais devotos. Mas mesmo sabendo como funciona a mente desta gente e de, por isso mesmo, ter a certeza que ambas me dedicavam uma adoração absoluta, fiquei aflita. Como sou boa, uma boa pessoa, compreensiva , lá lhes disse: « Ó minhas queridas, não precisam de disfarçar , eu entendo-vos perfeitamente. O que é que vai ser? Um beijinhos, uma fotografia autografada…só o autógrafo?»
A outra, bastante magra e com bigode, desata a gargalhar e encosta um dedo à testa , começando a rodá-lo. Com que a dizer que e a robusta era maluca. Quer dizer…isto foi o que eu pensei. Mas não. Afinal a esquelética não estava a chamar doida à robusta…mas a mim!
Ora, se há coisa que me encanzina é chamarem-me maluca! Posso ser, muitas vezes, obsessiva e algo...original, mas fecho muito bem a mala!
«Minhas senhoras» digo eu zangada « não sei o que pretendem , mas fiquem a saber que não admito más criações. Não é porque sou uma figura pública, uma estrela mediática, que vou tolerar enxovalhos, estão a perceber? Dou-vos mais uma oportunidade , se quiserem um beijinho ou um autógrafo aproveitem agora , antes que me zangue mesmo e as processe por danos morais!»
As duas remeladas desatam a rir, a rir, e entre perdigotos dizem-me que eu é que devia ser processada e por assédio, já que as incomodei com os meus acenos de doida.
Foi de mais! Chamei o gerente do estabelecimento.
O Sr. Ludovico, que me conhece há muito tempo, respondeu prontamente ao chamado, ou não fosse ele também meu fã.
Lá lhe expliquei a situação mas ele - são os custos da democracia! - quis ouvir também a versão da esgrouviada e da robusta.
As duas cabras voltaram a enxovalhar-me. Que eu é que me tinha metido com elas .
E eu expliquei ao senhor Ludovico que, à primeira vista, até poderia parecer que eu é que tinha tomado a iniciativa em relação aos dois estafermos, mas que isso apenas se deveu ao facto de eu saber perfeitamente que, depois de me terem visto na televisão,na quinta-feira, a receber os prémios, as pessoas querem falar-me e, se possível, tocar-me!
«Televisão? Bloscares? Quinta-feira?» Repete o Sr. Luduvico algo admirado « A menina Ana deve estar a confundir! Ou então está a brincar, com certeza. Na quinta só deu, à hora que a menina diz, os "Morangos com Açucar", os "Malucos do Riso", o Malato e uma porcaria cultural qualquer na :2 ; a não ser que fosse no cabo, mas eu isso não tenho. De qualquer das formas não ouvi falar nada desses óscares e, pelos vistos, estas senhoras também não.»
«Oh Sr. Ludovico! Eu não brinco com coisas sérias. E até lhe digo mais, desde que ganhei esses prémios a minha vida virou-se do avesso. Invejas . Não as suporto! » Digo eu traumatizada.
«Inveja de quê, ó maluquinha de Arroios? » Pergunta-me a gorda desdentada , logo secundada pela carga d’ossos bigoduda que, entretanto , ia perguntando a toda a gente que passava por nós, no supermercado, se me tinham visto na televisão a ganhar óscares e anéis.
Sei dizer que, de repente, me vi cercada de gente infame a rir-se na minha cara ; a gozar comigo!
Houve mesmo uma funcionária da secção do peixe que se pôs a apregoar : « Olha o bloscar fresquinho!»
Desisti. Sem mesmo escolher um nabo, que tanta falta que fez na sopa!, vim-me embora.
Mas atrás de mim veio um grupo de ganapos, seguramente das ninhadas da junta de vac…, quer dizer, das duas ordinárias do supermercado, a gritar : « Olhem quem aqui vai, a vencedora dos óscares do Magalhães Lemos!»
Um horror, enfim.

É obvio que não voltei a sair de casa e, depois de muito pensar, percebi que a solução é devolver os prémios . Não tenho vida para isto.
Alguém que fique com eles e me livre do fardo. Estão praticamente novos.
Obrigada!

P.S. Também me passou pela cabeça que as duas me tivessem sido mandadas por alguma das minhas rivais. Hum...Não, não pode ser.
Hum...só se fosse a Charlotte, não pelos prémios, que ela também os tem e bem merecidos, mas como castigo por eu me ter esquecido do aniversário dela!! Hum...

[ Parabéns querida Charlotte! Atrasados mas sentidos! ;) ]

Adenda: É óbvio que a Charlotte não fez aninhos agora. É em Setembro , entre 17 e 19. Ai esta minha cabeça...
Os parabéns são pelo ano de blogosfera.

Ana [4/05/2004 01:21:00 da tarde]