Crónicas Matinais

[ quinta-feira, abril 01, 2004 ]

 

Viva!

Querido Ilídio, estamos empatados! Eu também gosto de si.De maneira que não precisamos de arrancar os cabelos um ao outro , fazer bonecos de voodoo , etc. ;)
Olha, até te vou tratar por tu, para ser mais intimista a troca de opiniões.
Não escolheste mal a prosa para exemplificar o porquê de não apreciares Saramago. É muito actual a temática de Jesus na cruz. Eu própria estou a ler um livro -também ele de ficção- onde Jesus é protagonista. [ o livro é "The Judas Testament" de Daniel Easterman; um obcecado como eu. Dentro do género "livros de bolso", Easterman e Elmore Leonard enchem-me as medidas. ]
Mas eu não vou por aí. Eu gosto da maneira como Saramago ensarilha as palavras; sem , muitas vezes, pontos e vírgulas. Estou-me nas tintas , se me permites a expressão , para os temas; para as escabrosidades e anomalias sociais que , muitas vezes, os livros de Saramago apresentam. Eu gosto é das lengalengas algo indecifráveis. Do cochichar morrinhento dos diálogos interiores. Da sobranceria, até. Eu acho os romances de Saramago ( tirando o " Todos os Nomes" e " O Homem Duplicado") imensíssimos. É prosa chorumenta. E, tal como já disse, estabeleço um distinguo entre o cidadão e o escritor.
Que mais é que se pode dizer quando se gosta de uma determinada forma de contar histórias? De um determinado escritor?
Não sei.
Sei que o linguajar rabioso dele , na escrita, me cativou. E continua a cativar. É mais ou menos como o que sinto por Celine, mesmo sabendo que esse é, foi, um bom filho da puta.
O Saramago, a escrever, não é anacoreta . Reparte letras e verbos de uma forma que me agrada. Admiro os relatos rocambolescos. As crónicas mirabolantes. Até o patenteado cepticismo. Sem choraminguices ou chocarrices.
Às vezes, ao justificar ( como se fosse realmente preciso! ) o meu gosto pela prosa de Saramago, levo com um :« Ó filha, tem juízo!». Mas eu não quero ter juízo e continuo a gostar de o ler. É como a fixação que tenho , em dias maus, pelos Abba. Sou sincera. Não emprenho pelos ouvidos e, como tal...
Gosto de ler o gajo, pá! :)
Agora , quiçá para me queimar ainda mais, digo-te outra coisa : Não gosto, desde 1989, de nenhum romance do Lobo Antunes, por exemplo. E agora levanta-se a multidão ululante ( olha o Nelson Rodrigues! ) e diz : « Ai que sacrilégio! Ai valha-me a Santinha da Ladeira! Ai que mulher passou-se!».
É assim, tal qual. Não suporto a prosa dele desde 89. Mas não é por isso, querido Ilídio, que vou perder tempo a investigar os motivos que levam tantas alminhas a fazer do homem um génio. Cada um sabe de si.
E agora, para terminar, e antes de te enviar um beijinho e um abraço, deixa que te diga uma das minhas ideias mais interiorizadas : só quem nunca leu um livro dele até ao fim é que não gosta de Saramago. hi hi ...

E agora recebe o beijo e o abraço, se fizeres favor.

Ana [4/01/2004 10:41:00 da manhã]