Crónicas Matinais

[ segunda-feira, junho 14, 2004 ]

 

O resultado eleitoral explicado (mal ) às crianças

Vou-vos explicar umas coisinhas: vá , sentem-se aqui à minha volta. Podem comer um gelado e, se estiverem atentos e se portarem bem, também vos dou uma limonada.
Queridos:
Não precisam de fazer doutoramenos ( eu fiz, mas como podem ver, serviu-me de pouco ) sobre política para não fazerem figura de urso quando comentam resultados eleitorais.
Todos os partidos que estão no governo levaram no c...enfim, levaram na cabeça. A Espanha não conta, os espanhóis ainda não estão em condições de abrir os olhos porque anda por lá muito sol .
É indiferente se os governos são de direita ou de esquerda. O povo vota com o umbigo. Se há dinheiro para todos, a malta anda contente e gosta do seu governo , ou melhor, não tem razões para o querer mudar [ Luxemburgo ]. Se não há dinheiro para todos [ Todos os outros 23 ( a Espanha não conta, recordo) castigaram os seus governos ], o povo quer a mudança.
É assim sempre . Não são as doutrinas e causas políticas que determinam os resultados. São as dificuldades do dia a dia.
Meus queridos, andam para aí uns analistas mirins a dizer que A, B e C perderam as eleições europeias, nomeadamente pela sua posição em relação à guerra no Iraque. Não é que não tenha contribuido, mas não é A CAUSA. Porque se fosse os srs D , E e F também não tinham levado no c...na cabeça!
Está tudo ligado, é certo, mas as razões principais são tão simples que é inadmissível que não se percebam.
A malta está-se nas tintas para a política pura e dura. A massa humana que faz ganhar ou perder as eleições quer é viver em boas condições; ter casa, cama, roupa lavada e poucas chatices. E trabalho. Porque quem não trabuca não manduca.
Adianta um grosso a uma alemão ou a um francês ser amiguinho da "paz" e não ter emprego ou dinheiro para queijo e cerveja.
O Fritz , na hora do voto, tal como o Pierre, não pretendem , ao contrário das misses , que acabe a fome no mundo, nem que haja "paz". Pretendem é tirar do poleiro o tipo que , o mais das vezes sem ter alternativa, lhe aumenta os impostos e o faz pagar a mine e a sandes de coirato mais cara. O tipo que lhe governa a vida sem que ele veja grande coisa no fim do mês.
Há, de facto, entre a massa humana -- os eleitores-- uma pequena parte que vota na ideologia, que vota real e genuinamente em termos políticos. Mas é uma minoria, e é tristemente essa minoria que depois faz análises da treta ? tanto à direita como à esquerda ? e nos atira argumentos ,em jeito de areia ,para os olhos.
Como o desconhecimento é muito , como a memória é curta e como a desonestidade intelectual acaba sempre por dar "frutos", depois das eleições ( onde não há surpresas, raramente há factos verdadeiramente surpreendentes ) aparecem então uns iluminados a chamar os nomes errados aos bois errados.
Em Portugal as eleições foram ganhas pelo PS. Mas não foi pelas belas ideias do Partido Socialistas. Aliás, ninguém conhece ideias concretas de partido nenhum. Como quem está no poder é a coligação PSD / PP , como são esses partidos que comandam o barco, é natural que o eleitorado castigue o poder. Porque é o poder que lhe determina os salários; os postos de trabalho; o acesso à saúde . A conjuntura em que a governação se move é indiferente ao comum cidadão. Se há crise na Europa, se há critérios a cumprir é indiferente. Ao cidadão ninguém lhe paga para se preocupar com "essas coisas". O eleitor vota na mudança, sempre, porque vive com dificuldades e porque, apesar de tudo, tem esperança. O eleitor não pensa,no momento em que assina de cruz, que o partido no qual está a votar , quando chegar ao governo ( é um exemplo, falo de eleições em termos gerais ) não vai poder fazer milagres. Nesse instante não lhe passa pela cabeça que o partido ao qual está a dar o seu voto vai ter de aumentar impostos, e despedir funcionários públicos; não vai poder inventar médicos, escolas, e bons transportes públicos do dia para a noite. Nem lhe passa pela cabeça que isso é tão impossível para o partido no qual está a votar , como para os partidos que estão no governo. Falo de governos, porque é sempre assim que se vota. Por ou contra um governo. Mesmo quando se está a votar para outra coisa qualquer, como foi o caso no Domingo.
Estou a falar, meus queridos, dos eleitores que se deram ao trabalho de ir votar. Menos de 40%. Os outros...acham que não vale a pena; não só em termos gerais, mas especialmente numas eleições europeias ...que não percebem para o que servem. Nunca ninguém lhes explicou para o que servem. E assim seguem bronzeando e rindo.

O eleitor ,o que vota, quando vota , vota contra a situação em que vive. Vota com o umbigo. E é natural.
E como é o eleitor que decide , as mudanças acontecem. Mas ,depois, no dia a dia, o eleitor vai-se apercebendo que , afinal, os milagres não acontecem; que continua a ganhar mal e que a sua terrinha continua sem médico de família; que os autocarros continuam a chegar tarde e a más horas...quando chegam! E vai daí, nas eleições seguintes, vota ao contrário. Pelas mesmas razões.
Perceberam?

Depois explico porque é que , sendo mesmo assim, isto é errado.

Mas tomem lá agora a limonada que a minha vida não é esta e eu tenho de engendrar mais uma série de verdades absolutas, desta vez, sobre a bola.

Ana [6/14/2004 12:08:00 da tarde]