Crónicas Matinais

[ quarta-feira, junho 16, 2004 ]

 

São tempos fundamentais estes que se recordam

Já aqui lembrei Joyce e David Mourão Ferreira. Mas, graças à Antena 1, o meu coração aperta-se ( para o bem e para o mal ) porque recorda-se Aristides de Sousa Mendes.
Porque se assinalam os 64 anos da atitude que permitiu - a mim, e a tantos outros portugueses, não querer deixar de ser portuguesa. Uma atitude que salvou milhares de vidas. Hoje, mas principalmente amanhã, 17 de Junho; o Dia da Consciência.
Aristides de Sousa Mendes, há 64 anos cônsul em Bordéus , decidiu salvar vidas.
Foi homem ; o melhor dos homens. Deu vistos a pelos menos 11 mil judeus ; e a cerca de 20 mil refugiados .
Numa altura em que o governo fascista de Salazar agradava ao monstro de bigode ridículo,e Salazar admirava o facínora, Aristides de Sousa Mendes , contra a corrente, decidiu salvar vidas. Muitas. Todas as que lhe foi possível salvar. De judeus. De refugiados.
Abriu a porta da vida a quem tinha a morte como destino.
Aristides de Sousa Mendes merecia TUDO e acabou sem nada. Pagou bem cara a sua consciência de homem bom.
Tão cara que ainda hoje muito poucos portugueses sabem quem ele foi; quem ele é para quem tem memória e uma gratidão infinita. Uma gratidão que aquece o coração e, ao mesmo tempo, o faz sangrar. Porque dói , ao fim de tantos anos, saber que os MELHORES não são recompensados. A portugalidade pela qual me bato , pela qual sinto orgulho, não é propriamente a das caravelas e de Camões. É a de Aristides de Sousa Mendes.
Desde sempre, em minha casa, em tantas casas com memórias dentro, Aristides de Sousa Mendes está presente. Sempre.
E mesmo quando as datas me escapam, como foi o caso, os actos esses permanecem sempre na minha memória.
Na minha e na memória de tanta gente, espalhada por todo o mundo. Esta semana , em Israel, nos Estados Unidos, no Brasil, em França,etc, várias homenagens serão feitas. Todas justas. E em Portugal? A família e a gente boa que nunca o esquece ( nunca o esqueceu! ) também o vão homenagear.Mas, a nível institucional, duvido que se lhe dê importância. Afinal, nunca lhe foi prestada a homenagem devida.
Portugal não mereceu Aristides de Sousa Mendes. Mas a humanidade sim !
E todos os que são verdadeiramente humanos devem curvar-se perante a memória de Aristides de Sousa Mendes. E agradecer-lhe. Dizer-lhe obrigado.

Obrigada.Muito, muito, muito obrigada.



[ Há muito material, na internet, sobre Aristides de Sousa Mendes. Escolhi três sites; um guião de exploração pedagógica bastante aceitável; a página de Fernando Correia da Silva, que inclui o depoimento do Rabino Kruger; e a página dedicada a Aristides de Sousa Mendesna Jewish Virtual Library. ]

Ana [6/16/2004 11:43:00 da manhã]