Crónicas Matinais

[ sexta-feira, julho 30, 2004 ]

 

Abrir o coração

Ontem à noite , na France 2, passou um documentário extraordinário.
« La Paix Nom de Dieu !»
O resumo de uma viagem ,a Israel e à Palestina, organizada pelo semanário «Témoignage Chrétien ».
Cinco dias na Terra Santa . O semanário convidou 200 franceses, de todos os credos, mas essencialmente cristãos, e alguns muçulmanos e judeus.
Para mim este documentário é muito importante. Tirou as eventuais dúvidas ( que eu não tinha ) sobre a posição que os franceses e, grosso modo, os europeus , têm em relação ao conflito no Médio-Oriente.
A visita começou num campo de refugiados palestinianos , em Nazareth. Muitas crianças e mulheres , muita emoção. Na comitiva , entre várias outras personalidades religiosas, estava o Rabino de Nîmes, Philippe Haddad. O homem que mais se emocionou , e provocou emoção ; um homem que , mais adiante explicarei porquê , foi utilizado politicamente.
Uma senhora muçulmana , que integrava a comitiva , estabeleceu contacto com as muitas crianças que queriam conviver com os visitantes e aparecer na televisão. São crianças que foram obrigadas a crescer muito depressa e que, portanto, não têm a inocência da idade ; e têm consciência política.
Um dos meninos, falador, um futuro líder nato, quando é informado que , na sua presença , está um rabino zanga-se.
Diz-lhe : « não queremos cá judeus !» A senhora, que , sinceramente, acredita que defende apenas a paz, explica-lhe que ele é um dos judeus «bons» ; um dos que defende os irmãos palestinianos.
Mas o menino não acredita ; o menino diz que os judeus são todos maus e tenta fazer o rabino dizer «Alá é grande».
Philippe Haddad diz-lhe que D-us é grande para todas as religiões. Diz-lhe que o que interessa é fazer a paz.
Mas o menino grita : « Nós vamos ganhar ! Alá vai fazer-nos ganhar ! Não queremos cá judeus !»
O menino não tem culpa. Não tem culpa. Foi educado para fazer a guerra e não a paz.
Noutro ponto, um pai palestiniano tira da carteira uma fotografia do seu filho de 13 anos com uma AK-47.
Outra senhora muçulmana francesa diz-lhe : « Isso é errado ; não está bem uma criança andar armada !»
Mas a mãe da criança que na fotografia sorri com a arma encostada a si diz :« Não está bem ? Claro que está bem ! Ele é o nosso orgulho !»
E o menino armado confirma com a cabeça, sorrindo. Está ali ao lado a ouvir tudo. orgulhoso.
Um dos jovens judeus que acompanha a visita , e assiste a este diálogo, choca-se. Diz, mais tarde, à senhora muçulmana francesa : «Isto não está bem,, não está bem. Não pode ser assim, armar as crianças, assim não há esperança ». A senhora muçulmana francesa diz que concorda ; e diz que repetiu isso à mãe do menino armado e que acha que ela compreendeu. Foi a única reacção.
No dia seguinte a comitiva vai visitar o quartel-general de Yasser Arafat. O presidente da ANP recebe a comitiva com pompa e com muitos fotógrafos .
Faz um discurso anti-judaico ; aponta o dedo ao belicismo de Israel ; condena a comunidade internacional por ter ficado chocada pela destruição dos Budas pelos Talibãs no Afganistão e por ninguém ter dito nada quando a estátua da Virgem foi atingida por rockets israelitas. Toca nos pontos sensíveis, enrola a comitiva francesa apelando-lhe ao sentimento ; fala de sofrimento e de injustiça . E de vingança. Mas nem uma palavra sobre o terrorismo ; sobre os atentados suicidas . Nem uma palavra em relação à Paz. Só em relação à vitória, à sua vitória. E praticamente ninguém se importa. Aplaudem-no de pé. Gita-se , não « Viva a Paz» , mas sim « Viva a Palestina !».
No fundo da sala estão dois jovens judeus que choram desalentados. Não batem palmas.
Mas na primeira fila está o rabino Philippe Haddad que chora, chora muito. Mas não bate palmas.
Na tribuna de honra uma senhora , da organiação, que acredita, sinceramente , defender a paz, vai buscar o rabino e leva-o para o lado de Arafat . Estão todos de mãos dadas . A senhora faz o rabino dar a mão a Arafat . O rabino é um homem bom, está emocionado, sofre com o sofrimento dos homems , e dá a mão a Arafat. Uma solidariedade espontânea e pura. De mão dada com Arafat o rabino chora ; soluça. Reza.
Mais um dia : no programa da visita está um encontro com israelitas. Na tribuna não está nenhuma autoridade israelita, apenas um jovem judeu , que deixou a França há alguns anos ; um jovem que foi vitima de um atentado terrorista . O jovem conta a sua experiência ; o estado de coma ; como viu os amigos morrerem ao seu lado ; fala de como é viver com medo.
Mas a plateia não parece muito interessada ; há mesmo uma « imagem que mata » : enquanto o jovem fala uma senhora dorme. Mas o jovem está ali para contar como é viver do outro lado ; com medo. Muito medo.Mas o jovem percebe que a assistência lhe é hostil. E tenta explicar que entende. Que percebe porque é que os franceses são pró-palestinanos , mas que gostaria que as pessoas , os franceses, entendessem também as orígens do conflito . Que quando há ataque, para sobreviver, é preciso defesa.
A assistência começa a reagir ; faz os comentários do costume sobre o sofrimento palestiniano.
No fundo da sala os dois jovens judeus franceses choram e dizem entre eles :« Mas porque é que nunca se fala do sofrimento dos judeus ? porque é que não percebem que há dois lados ? »
Um senhor da assistência explica que não é contra Israel, simplesmente é contra a política de Sharon e que lamenta que os judeus de israel não o gritem bem alto. O senhor , enervado, dá a entender que os judeus têm de pensar como ele se quiserem que ele os entenda.
O jovem judeu de Israel está desanimado. Sente a hostilidade e nenhuma solidariedade. Porque não consegue passar a mensagem de que, para haver paz, é preciso vontade. É preciso que se aceite , obviamente a criação de um Estado Palestinano, mas que Israel não pode ser posto em causa. Que o direito é o mesmo.
A assistência nega o perigo para a existência de Israel .E o jovem judeu de Israel resigna-se à hostilidade. Afinal , o que é que se pode fazer contra as ideias preconcebidas ?
Depois dessa «troca de ideias» a comitiva descobre que a imprensa palestiniana colocou nas suas primeiras páginas a fotografia de Arafat de mão dada com o rabino Philippe Haddad , em que este chora.
A orquestração tinha resultado. A visita foi utilizada politicamente por Arafat e, em alguns textos, era mesmo dado como certo o apoio total do rabino à causa palestiniana em detrimento de Israel.
Os jovens judeus franceses sentem que o rabino, e eles próprios, foram usados. Que tudo não passou de uma encenação política, baixa, para Arafat ganhar pontos.
Quando dizem o que pensam a alguns dos elementos da comitiva , recebem uma espécie de « olha, paciência ! » em troca.
Quando o autor do documentário pergunta ao rabino Haddad o que ele pensa do sucedido, ele explica que sentiu que a sua emoção genuina foi utilizada , de facto, politicamente mas que depois, racionalizando o sucedido , percebeu que assim poderia chegar mais facilmente à comitiva e fazê-la perceber qual é realmente a posição sionista e de Israel, sem que o acusem de ser anti-palestiniano, que, de facto, não é.
Mas como há essa ideia preconcebida de que quem defende Israel e os judeus é contra os palestinianos e contra a Palestina ...
Enfim.
A reportagem termina com uma senhora falando de paz. Uma senhora simples, já com uma certa idade, francesa e cristã ( que disse ao longo de toda a visita que se sentia mais útil depois desta viagem ) e que , com toda a sinceridade, explicou que mudou um pouco a ideia que tinha de Israel e dos (judeus ) israelitas . Isto porque descobriu que também há judeus pobres em Israel, que também há desemprego em Israel.
A senhora, com toda a sinceridade, achava que Israel era um mar de rosas para todos os judeus.

Em resumo : está lá tudo. Nas palavras e ideias dessa senhora simples. As ideias preconcebidas, os preconceitos. A falta de interesse pelo sofrimento causado pelo conflito aos israelitas ; o branqueamento dos atentados terroristas.

Comecei por dizer que achei , acho, o documentário extraordinário. E acho isso porque está lá tudo. Estão lá bem espelhadas as razões que levam a que a velha europa seja cegamente pró-palestiana . Digo cegamente porque , se dúvidas havia, e eu nunca as tive, o outro lado, o lado dos judeus , o lado de Israel nunca , mas nunca !, é tido em conta.
E é por isso que assim , a velha Europa, a Europa que inventou e alimentou o anti-semitismo , não ajuda a fazer a Paz. Pelo contrário. Ao tomar partido cegamente, sem ter em conta o outro lado , está a legitimar o terrorismo.
A Legitimar a Guerra .

E do que todos precisam é de Paz.
Shalom! Salam !

Ana [7/30/2004 12:50:00 da tarde]