Crónicas Matinais

[ sexta-feira, julho 30, 2004 ]

 

[ Atenção: o texto que se segue é extenso.Muito extenso. E pode ferir a sensibililidade dos que têm ideias preconcebidas ]

Aconselho, no entanto, a que leiam , primeiro, o post anterior. Foi ele que me levou a escrever este.Eu sei que ambos são grandes, e este particularmente. Mas ninguém é obrigado a ler. Há por aí alternativas que nunca mais acabam; e com figuras. Resta dizer que baseei o texto ( mas não as ideias ), porque a minha memória já não é o que era, em muitos escritos históricos-porque absolutamente verdadeiros, que encontrei na net. Além disso é humanamente impossível andar com 500 kg de livros na carteira, todos os dias.*

Eu sei. Num mundo perfeito o dia 14 de Maio de 1948 teria trazido alguma paz e segurança ao povo judeu, e ao mundo. A partir desse dia , a Palestina, Israel- ERATZ-ISRAEL - poderia, finalmente, albergar os seus filhos ,legalmente, e protegê-los no seu seio. Pois se foi aí que a sua identidade religiosa, espiritual e política começou. Pois se é o berço dos berços; o que nos deu o Livro dos Livros.
Depois de centenas de anos de exílios forçados e de errância , o retorno; a Aliya sagrada, traria então a paz. Na terra prometida.
Isto seria então num mundo perfeito.
Mas o mundo não é perfeito. Porque se fosse perfeito não existiriam milhões de pessoas que acham normal esmagar um povo; acabar com um povo inteiro e fazer disso cavalo de batalha.
Se o mundo fosse perfeito , não seria possível pintar fogueiras com carne humana a arder, pinturas baseadas em casos reais. Nem seria possível fotografar valas comuns -quando havia corpos- ou fotografar montanhas de cabelos, sapatos, óculos . Nem câmaras de gás rodeadas de bidões de zyklon B.
Nem seria possível olhar para certas ruas, guetos, e ver esqueletos agonizantes ou mesmo já mortos, a apodrecerem à vista de todos.
Num mundo perfeito não se enfiavam centenas de pessoas em carruagens , sem água e sem ar, para que agonizassem e se esmagassem antes de chegarem aos seus destinos. Cruéis.
Num mundo perfeito não se matavam crianças como quem esmaga formigas incomodativas.Um milhão e meio de crianças.
Mas , lá está, o mundo não é perfeito.
Porque, se por milagre, o fosse ,nunca ninguém poderia esquecer o holocausto, a Shoah ; essa atrocidade que ultrapassa a compreensão humana.
Mas o mundo não é perfeito porque há quem exija que, não só se esqueça, mas que pura e simplesmente se deixe de falar disso. Como se isso se tivesse passado há séculos, como a inquisição, e não nos dias de hoje. Sim, porque 60 anos é hoje.
Voltando ao princípio: Depois de tanta dor, e de tantas negociações complicadas potiticamente, as Nações Unidas aprovam o estabelecimento de Eratz-Israel como Estado. A 29 de Novembro de 1947. Menos de 6 meses depois a esperança renasce e o sol brilha nos corações dos que acreditam ; dos que conseguiram sobreviver , com a ajuda de D-us, e de alguns homens justos: a 14 de Maio de 1948 o Estado de Israel é declarado.
Mas não foi Paz que os judeus , em Israel, encontraram.
Depois de , lado a lado , com os irmãos árabes da Palestina terem «combatido» a potência administrante pelo direito a viverem em Eratz-Israel, o lado negro dos homens voltou a atacar as esperanças de Paz.
A violência , em Eratz-Israel, começou quase imediatamente após as Nações Unidas aprovarem o estabelecimento do Estado de Israel. Logo no dia 29 de Novembro de 1997, Jamal Husseini , porta-voz do alto comissariado Árabe, afirmou: « the Arabs will drench the soil of our beloved country with the last drop of our blood?»
Dito e feito. Logo começaram os ataques aos judeus . E os judeus ripostaram. Nesse dia, tão esperado e histórico, mataram-se 62 judeus e 32 árabes.
Duas semanas depois a contabilidade subia para 93 árabes , 84 judeus e 7 ingleses mortos ou feridos com gravidade.
Em Fevereiro , dois meses depois, contavam-se 427 árabes e 381 judeus mortos e perto de dois mil feridos de ambos os lados. No mês de Março, e só nesse mês , morreram 271 judeus e 252 árabes. Em ataques árabes e em contra-ataques judaicos.
Foi, nessa altura, pronunciada a primeira Jihad ( guerra santa ) ,oficial , contra os judeus.
O primeiro ataque em grande escala, acontece , no entanto, a 9 de janeiro de 1948. Mais de mil árabes atacam várias comunidades judaicas no norte da Palestina. Em Fevereiro, os britânicos, que detinham a administração , admitiam não ter força para combater os árabes e baixaram os braços.
Mais uma vez os judeus tinham milhares de inimigos às suas costas. E nenhuma ajuda.
E digo milhares porque, na primeira fase da ofensiva, de 29 Novembro de 1947 até 1 de Abril de 1948, os árabes palestinianos, que comandavam os ataques sobre os judeus, contavam com o apoio de voluntários de vários países vizinhos. Os judeus não podiam sequer circular; todas as vidas estavam em perigo.

A 26 de Abril de 1948 , o rei da Transjordânia, rei Abdullah, chamando à presença de judeus na Palestina « o problema » declara que só a guerra poderia resolver o assunto. E chamava a si a responsabilidade . No seu descurso, que em quase nada se diferenciava dos de Hitler, e referindo-se ao « problema» afirmava : « I will have the pleasure and honor to save Palestine. »

A 4 de Maio de 1948 , a Legião Árabe ataca Kfar Etzion. Os judeus resistiram. Mas a legião volta a atacar uma semana depois . Os que se rendem são massacrados e as suas terras e bens confiscados.

Foi este o rastilho da invasão , pelos exércitos árabes, que se seguiu logo na hora seguinte à declaração do Estado de Israel pelas Nações Unidas. A 14 de Maio de 1948.
Quando a 14 de Maio de 1948 , é criado o Eratz-Israel, a população judaica era de 650 mil pessoas. Uma comunidade organizada, com instituições políticas, socias e culturais . Uma nação , em todos os sentidos, à qual apenas faltava o nome e a existência legal.
Nome e independência que os Estados árabes vizinhos NUNCA aceitaram. E por isso lançaram um ataque, em várias frentes, dando origem à chamada Guerra da Independência (1948-1949 ). Israel tinha de defender a soberania que havia acabado de conquistar. Defender o seu direito à vida. A existir.
Uma luta que se mantem até hoje, diga-se.

Voltando um pouco atrás:
Em Fevereiro de 1948, o Conselho de Segurança das Nações Unidas, diz ,claramente, que a violência que se vive na região é da inteira responsabilidade da população árabe.E acusa árabes e britânicos de não permitirem a implementação do Estado de Eratz -Israel , tal como tinha sido decidido em Novembro de 1947.
Mais:
A 16 de Abril de 1948, o já citado Jamal Husseini, declarava no Conselho de Segurança da Onu :
« The representative of the Jewish Agency told us yesterday that they were not attackers, that the Arabs had begun the fighting. We did not deny this. We told the whole world that we were going to fight.»

Para os judeus tornava-se claro, tinham de se defender como podiam, ou seriam exterminados. De novo.
E apesar da escassez de meios e de homens, o povo judeu organizou-se e tentou defender-se . Conseguiu controlar algumas das principais cidades , incluindo Tiberias e Haifa, e abria uma estrada, temporária, para Jerusalém.

A resolução das Nações Unidas mantinha-se. E como contra a barbárie só a lei se pode impôr , o Estado de Israel é criado, a 14 de Maio de 1948. Os britânicos deixam defenitivamente o país. E começa a invasão concertada.
Cinco países, e respectivos exércitos, invadem Eratz -Israel: Egipto; Síria; Transjordânia; Líbano e Iraque.
Os países invasores nem sequer esconderam as suas intenções.
Numa reunião da Liga Árabe , o secretário geral Azzam Pasha, é peremptório : « This will be a war of extermination and a momentous massacre which will be spoken of like the Mongolian massacres and de Crusades.»

À margem do espírito ilegal dos que avançam para a guerra, as « superpotências » EUA e URSS reconhecem Eratz-Israel, assim como a maioria das nações. E todos condenaram os países árabes envolvidos na jihad.
E incitam-nos a cumprir a lei.
Mas a invasão árabe continua no terreno.
A primeira fase da ofensiva árabe temina apenas a 15 de Julho, quando o Conselho de Segurança ameaça punir, com severidade, os países árabes envolvidos no conflito; por incumprimento da carta das Nações Unidas .
Por essa altura, a Haganah - o movimento militar de defesa dos judeus, criado em 1920, mudava de nome e ganhava força. Passava a chamar-se Forças de Defesa de Israel ( IDF ) e conseguia, cada vez mais, travar a ofensiva árabe.
E note-se que, aquando da proclamação do Estado de Israel , o "exército" judaico não tinha um único canhão ou tanque. E mesmo armas poucas tinha, e as que tinha tinham sido contrabandeadas , especialmente desde a Checoslováquia, porque as armas do mundo ocidental, especialmente dos EUA e da Grã-Bretanha, estavam nas mãos dos árabes. Mas a coragem, essa, era muita; assim como o espírito de sobrevivência. Ficou famosa aquela frase de David Ben-Gurion , antes da guerra da Independência: « The best we can tell you is that we have a 50/50 chance.»

Mas a guerra árabe para destruir Israel falhou. E as consequências logo se acumularam. E ninguém as pode negar.
De facto , os árabes , devido às suas agressões, perderam muitas terras; terras que nunca teriam sido ocupadas se tivessem aceitado a lei; a resolução das Nações Unidas. Numa palavra: tivessem aceitado o Estado de Israel .Em paz. Porque em nenhum documento, em nenhum relato histórico aparece a palavra guerra ligada ao povo judeu.
O Estado de Israel pretendia , então e sempre, construir-se em paz. Mas para se poder aspirar a viver em paz é preciso uma coisa fundamental : estar vivo.
E por isso se defendeu, na altura, e se defende hoje.

Não nego os exageros de Sharon, e não me choca quando lhe chamam um homem de guerra.
Mas, sinceramente, aqui a célebre questão « quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha ? » tem resposta óbvia e simples. Não justifica nada, claro. Mas ajuda a entender as raízes do conflito.
Dir-me-ão que, actualmente, as culpas são repartidas. Será verdade.
Mas quem começou sempre? Sempre?
Quem sempre falou em guerra e nunca em paz?

Querem mais exemplos?
Depois da guerra da Independência e depois de assinado o armistício com Israel ( primeiro o Egipto, a 24 Fevereiro de 1949; depois o Líbano a 23 Março; a Jordânia a 3 de Abril; e a Síria a 20 de Julho - o Iraque não assinou nada com Israel, apenas retirou as suas tropas e entregou o seu sector à legião árabe da Jordânia ), outras guerras se sucederam.

A Guerra dos 6 dias, em 1967.
Causas ? depois de mais de uma década de relativa tranquilidade, o número de ataques terroristas árabes, através das fronteiras com o Egipto e a Jordânia aumenta. Depois de 6 dias de combates intensos, Israel derrota os atacantes e livra-se dos bombardemanentos sírios , que duravam há quase 20 anos. Israel passa também a controlar o Estreito de Tiran e reunifica Jerusalém ( dividida entre Israel e Jordânia desde 1949 ).
Segue-se um novo período de calma, sempre realtiva, até que, a 6 de Outubro de 1973 , no dia mais sagrado do calendário judaico, Egipto e Síria lançam um novo ataque , conjunto, contra Israel.
A guerra do Yom Kippur ( o dia do perdão ).
Os combates duram três semanas. E, novamente, as Forças de Defesa de Israel mudam o rumo das batalhas e repelem os atacantes .

Apesar dos sucessivos ataques dos países vizinhos , Israel sempre tentou negociar a Paz. E até o consegue. Primeiro com o Egipto e depois com a Síria.
Paz feita, Israel retira-se de uma grande parte dos territórios conquistados durante os períodos de guerra.
O tempo passa.
Israel desenvolve-se; cresce; prospera e vive em relativa paz. O ciclo vicioso da rejeição por parte dos vizinhos árabes é então quebrado pela visita , em Novembro de 1977, do presidente egípcio Anuar Sadat, a Jerusalém.
Seguem-se as negociações entre Egipto e Israel , sob os auspícios da União Europeia, que culminam com os acordos de Camp David.

Enfim, muito aconteceu desde então, e Israel não está isento de culpas.
Mas o objectivo sempre se manteve: defender-se.Nada mais do que isso.
E os colonatos, a maioria dos colonatos, estão assentes em territórios conquistados em períodos de guerra. Guerra sempre declarada pelos vizinhos árabes.Nunca Israel tomou qualquer iniciativa bélica contra os seus vizinhos. Nunca. Sempre respondeu a ataques.

Claro que isso não dá direitos , nem legitima os colonatos. Mas explica as origens; os porquês.

E é só isso que pretendo com este texto. Sem justificar o que quer que seja, explicar as origens; o contexto e os porquês.
Porque estou farta , não só da ignorância, mas essencialmente da má fé de quem tanto fala em paz, de quem tanto fala deste conflito , sem ter a mais pálida ideia do que está a dizer.

Porque todos os dias são bons dias para chegarmos mais longe. É o que espero.


*Bom fim de semana. Shabat Shalom!




Ana [7/30/2004 03:00:00 da tarde]