Crónicas Matinais

[ terça-feira, julho 27, 2004 ]

 

Enquanto me recomponho das gargalhadas provocadas pela oposição hoje na Assembleia da República , e enquanto preparo um texto sobre Israel e outro sobre o Sudão, passo a palavra ao correspondente brasileiro desta humilde casa.

Glauco Arns Moretti fala-nos hoje sobre presidentes. E muito bem. Enjoy it.

Coitados dos nossos presidentes

Seguindo meu exemplo, alguns milhões de brasileiros, votaram no dia 3 de outubro de 2002 por mudança. Não apenas mudança de governo e do presidente, que é algo absolutamente desimportante. O voto constituiu-se pela mudança de atitude.
Aqui o voto, infelizmente, é obrigatório. Não deveria ser. Mas teme-se que pouquíssimos brasileiros sintam vontade de votar na data eleitoral. Seria muito melhor passar o dia comendo um suculento churrasco, bebericando agradáveis cervejas, pois nesta época já se faz um calor gostoso de primavera. Mas não. A partir das 18 horas em todo território nacional, é terminantemente proibida a venda da tal ?água que o passarinho não bebe?.
Colocamos no dia 3 de outubro de 2002, um metalúrgico no poder do país mais importante da América do Sul. (economicamente falando, é evidente, pois todos os países são importantes, dependendo do ponto de vista de cada um. Não troco o meu bairro pelos Estados Unidos da América.) Este ex-metalúrgico chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. Cursou até a quarta série do ensino primário, não fala nenhum outro idioma, e diariamente assassina um pouco do nosso português em seus discursos improvisados, parecendo o saudoso Fidel e seus falatórios que duravam horas e horas. Para um presidente, isso é pouco, muito pouco. Mas repito, votamos por mudança e votamos em uma pessoa que já havia perdido três eleições presidenciais, por total despreparo político. Se me questionarem dizendo que votei por pena, negarei até a morte. Não se coloca ninguém no mais alto escalão por pena. Mas muitos votaram. Eu votei na tal da mudança.
Temos o mais completo esquema de votos eletrônicos do mundo, e foram precisos apenas três dias para que dessem o veredicto e a vitória para o ex-metalúrgico, agora presidente. Quase chorei no dia de sua posse. No primeiro dia do ano de 2003. O Brasil parou. O Palácio do Planalto encheu-se de gente admirada. Brasília nunca recebeu tantos turistas. Caravanas de todas as partes do país, inclusive aqui do Sul, passaram o reveillon dentro de ônibus. Estavam indo ver o ex-metalúrgico, que perdeu um dedo da mão em sua árdua labuta. Agora era o Presidente da Republica Federativa do Brasil.
Fernando Henrique Cardoso, com elegância e desprazer passou a faixa presidencial para o novo presidente. Era oposição, mas foi um exemplo claro de democracia. Foi lindo. Foi empolgante. Entrava o presidente mais votado da história do Brasil. 50 milhões de votos. E era de uma oposição ferrenha, chata, daquelas que discordava do certo até a morte. Mas votamos pela mudança.
O dólar FHC estava em alta. Ainda está. Os juros estavam altos. Ainda estão. A violência predomina nos grandes centros. Continua a mesma coisa. Existiam milhares de impostos. Hoje um pouco mais. Só estamos mais velhos, pois o tempo não perdoa ninguém. Mas há de perdoar. Continua a mesma coisa. E os cabelos dos velhos aposentados, coitados, esquecidos, abandonados, estão mais grisalhos, pois como já disse, o tempo não perdoa, mas há de perdoar.
Não me arrependo em nada do que fiz. Coitado de nosso presidente. Merecia esta chance e lhe foi concedida. E não está sendo um presidente ruim, muito pelo contrário. Está sendo legal, com bons propósitos, talvez um pouco mal formulados, mas não é mal intencionado. Mas como todo presidente, por mais bem preparado que esteja, aos olhos do povo sempre estará despreparado. Jamais ficaremos satisfeitos com o chefe-maior. Pode ser Chirrac, Putin, Bush, eles fazem sempre a mesma coisa. Eles são ótimos, mas, ao mesmo tempo, sempre serão horríveis, péssimos, os piores. Quem implorou para serem presidentes? Mas o tempo há de perdoa-los. Eu também.


Glauco Arns Moretti
[ contacto: glaucoarns@yahoo.com.br ]

Ana [7/27/2004 04:39:00 da tarde]