Crónicas Matinais

[ sexta-feira, julho 02, 2004 ]

 

Fuck yourself, son of a bitch!

Também gostei muito de ver o Saddam Hussein na televisão. E gostei ainda mais de o ouvir.
Pode ser que alguns anjinhos que para aí andam a ocupar espaço percebam que, se lhe derem oportunidade, ao Saddam, ele vai acabar por fazer tudo outra vez: matar, matar e vingar-se.
Eu sei que muitas virgens salvíficas andam com as mãos na cabeça a dizer: « Ai valha-me a santinha da Ladeira , não é que esses iraquianos vendidos ao amaricanos querem condenar à morte o pobrezinho do senhor? Ai os direitos humanos; ai a liberdade, a igualdade e a fraternidade!»
Isso é muito bonito. Sou até capaz de verter uma lagrimita por tão boas almas...
Não me fodam.
Se não tirarem a tosse ao gajo, ao facínora, sabem o que vai acontecer?
Os terroristas que o defendem e que andam a matar civis indiscriminadamente no Iraque vão arranjar maneira de o tirar das mãos da justiça e ele vinga-se à séria. Carnificina total.
Viram a forma como ele falou? A arrogância ? « Eu sou o presidente do Iraque!» ; «os Koweitianos são cães» ; «Eu só soube do gaseamento dos curdos pela comunicação social » etc.
E repararam como o juíz o enfrentou de cabeça baixa? Com medo?
O animal é diabólico e a sua especialidade é dar a volta por cima. Os iraquianos ainda têm medo dele. E têm razões para ter. Se os soldados americanos deixarem de controlar Saddam, se ele for entregue apenas às forças da ordem iraquianas , temo o pior.
Concordo que , a nível político, grandes nações democráticas, como a Inglaterra, se mostrem contra a pena de morte. É natural que assim seja.
Aliás, quem tem o objectivo de «democratizar » um país árabe não pode agir de outra maneira.
O que espero não é que o Iraque institucionalize a pena de morte. Não. Eu sei que já aqui defendi, no blog, a pena de morte. Mas, sinceramente, não tenho opinião consensual sobre a pena de morte, a nível legal. Em países claramente democráticos não me choca porque sei que há um contrôle sério ; nos outros choca-me.Eu sou eu mais as minhas contradições.
O que espero, e desejo, é que ele, Saddam, seja abatido o mais rapidamente possível . Não quero dar lições a ninguém, nem imiscuir-me nas decisões de um estado soberano.
Quero é apelar a algum mercenário que possa eventualmente estar a ler-me ( há sempre um mercenário à mão...) que faça a justiça de aceitar a tarefa de salvar ,eventualmente, se não a humanidade, uns milhões de iraquianos.
Estou disposta a contribuir e sei ser generosa quando é preciso.

Também me transtornou muito uma reportagem que vi esta semana sobre as leis turcas no que à família diz respeito.
A constituição turca ainda legitima os «crimes de honra». A reportagem mostra um caso banal: um turco não gostou que a sua mulher lhe tivesse respondido e toca de sacar da naifa e esfaqueá-la ; na via pública. Na imagem vê-se , e ouve-se, a senhora a pedir para ele parar enquanto ele, tranquilamente e indiferente à gente que passa, está sentado junto a ela espetando a naifa no peito, na cara e nos olhos da mulher. Perto de 30 facadas foi o resultado. O homem acabou por ser detido e foi condenado a ano e meio de prisão, que não cumpriu.
A reportagem mostra também depoimentos de jovens turcos que explicam que, mesmo que não concordem, são obrigados a lavar a honra, porque a sociedade assim o exige. Houve um que disse: « Se eu não fizer nada , um dos meus amigos diz-me : tu não és homem, não honras o bigode que usas.» A eterna questão dos homens de bigode e barba rija. A reportagem mostra também o caso de uma senhora que foi violada pelo vizinho e que foi lapidada, também em praça pública, e o vizinho violador morto a tiro. Porquê matar a mulher se ela foi a vítima? Pois para os turcos uma mulher se é violada é porque provocou o violador.
A reportagem começa, no entanto, com o depoimento de um senhor idoso, com várias mulheres, que explica , sorrindo, que as mulheres são dos maridos e eles podem fazer delas o que quiserem .
Trágico é que tudo serve para justificar a «lavagem de honra », até olhar para o lado ou ter dores de cabeça nos dias difíceis.

Não. A Turquia não pode fazer parte da União Europeia. Não ainda. Talvez nunca.

Ana [7/02/2004 12:06:00 da tarde]