Crónicas Matinais

[ quarta-feira, agosto 18, 2004 ]

 

Eu sou uma rapariga bem disposta. Ninguém gosta mais de rir do que eu.
Posto isto tenho a dizer o seguinte:
Há quem me acuse ( especialmente alguns elementos do bom velho gang do Pastilhas ) de já não escrever tantas graçolas e episódios engraçados; de estar a tornar o meu blog num espaço dedicado, quase só ao judaísmo .
Têm alguma razão.
Mas os tempos mudam, assim como a nossa capacidade mental para engolir sapos.
Dá-se o caso de, na blogosfera portuguesa, haver anti-semitismo primário. Dá-se o caso de eu viver em França e de estar, cada vez mais, confrontada com a irracionalidade do ser humano. E dá-se o caso de eu ter cada vez mais medo que a história se repita em breve.
Eu gosto de rir; de dizer piadolas e de me divertir e, se possível, divertir os outros. Mas, nesta altura da minha vida, tenho outras prioridades.
Estou para aqui a gastar latim , e , quiçá, a maçar a vossa paciência, porque hoje, ao ler o blog do meu querido amigo MacGuffin, lá fui obrigada a ler também o sr. Luís Rainha do Blogue de Esquerda.
Eu acho uma patetice criar inimizades com gente que não se conhece de lado nenhum; é uma perda de tempo e de energias.
Mas, justamente, esse senhor é um dos homens que me faz temer o retorno das trevas.
Eu explico: Sempre que o leio sinto um friozinho na espinha. Porque são muito raras as vezes que ele, e não só, no BdE,não levanta o dedinho contra os judeus. Por tudo e por nada. Justifica o injustificável e desculpa o indesculpável. Mesmo quando tem argumentos válidos, estraga tudo ao destilar veneno contra os judeus.
Eu ando há meses para escrever sobre o Luís Rainha e sobre o que ele representa para mim. Mas, lá está, não quero ser mal-educada e não queria ser injusta para o Blogue de Esquerda em si, um blog que leio bastante, especialmente graças à escrita de José Mário Silva, a quem respeito muito e com o qual já fui muito injusta . Uma vez, precisamente por causa de um texto sobre o conflito no Médio Oriente , escrevi uma comentário com raiva a José Mário Silva. E arrependi-me porque sei que fui muito, muito injusta.
Mas agora chega.
Tenho de sair do armário e dizer o que me vai na alma : Luís Rainha faz-me medo. Luís Rainha é a representação perfeita dos que se escondem por trás de «boas intenções» para destilar ódio. Pretende fazer crer que defende - e se fosse verdade nada tinha contra - os árabes e os muçulmanos. Muito bem. Eu também os defendo quando lhes apontam o dedo só porque são árabes ou muçulmanos. Mas nunca, nunca!, ao defendê-los ,me esqueço de separar as águas. O problema do anti-semitismo não é um problema - volto a repetir a ver se vos entra na cabeça - entre árabes e judeus. O anti-semitismo é uma criação dos ocidentais, ou melhor , dos europeus. Dos brancos .
O ódio que existe entre árabes e judeus não tem como causa primeira o anti-semitismo, como o conhecemos no velho mundo. É uma questão de história, de política e de força. A questão religiosa é secundária e sempre o foi. Os árabes muçulmanos têm tradições semelhantes aos judeus; profetas em comum e , ao longo dos tempos ,respeitaram sempre as especificidades de cada um.
Quando um anormal qualquer critica um judeu , por exemplo, pela circuncisão , devia saber que para os muçulmanos ela também é obrigatória e tradicional. Quando esse animal anormal achincalha um judeu, por exemplo, porque ele não come carne de porco, devia saber que o mesmo se passa entre os muçulmanos. Mas há tantas coisas mais em comum. Enfim, não é disso que quero falar.
Quero é dizer que se pode defender os árabes, os muçulmanos e a Palestina sem atacar , por sistema, os judeus.
O meu problema com o Luís Rainha é esse. É que ele não defende os árabes e os muçulmanos , ele é pura e simplesmente contra os judeus.
Ele não defende a Palestina, ele defende pura e simplesmente o fim de Israel.
É isto que penso. Mais: penso, sinceramente, que o Luís Rainha , que é seguramente um bom profissional , é um anti-semita primário.
Faz-me medo.
Mas, infelizmente, não está sozinho nessa cruzada.

Numa toada negacionista - e note-se que o negacionismo é crime - diz que o anti-semitismo , em França, é um mito. Que é tudo uma empolação da imprensa.
Como diz o ditado, o pior cego é aquele que não quer ver.
Julgo que Luís Rainha também vive em Paris. Proponho-lhe o seguinte: no próximo sábado, se tiver tempo, que faça um passeio até ao Marais. Que tenha a coragem de entrar na Rue des Rosiers e de falar com os muitos judeus que por lá vai encontrar. Que meta conversa com um judeu ortodoxo ( simplificando, são os que andam de fato preto, camisa branca e chapeu preto ) e que o convide para tomar um café. Mas não vá de carro, tente fazê-lo ir consigo de metro. Dou-lhe - fica aqui a promessa - mil euros por cada judeu ortodoxo que conseguir levar até uma estação de metro.
Quando perceber que , para um judeu que exterioriza ( o fato e o chapéu ) a sua condição , andar de metro representa uma ameaça semelhante aos pogroms de antanho, é capaz de repensar a ideia que tem do anti-semitismo em França ser um mito.
E este é apenas um pequeno exemplo.

Um bom dia para todos e desculpem o desabafo mas, ou falava hoje, ou explodia.
Pode ser que , amanhã, escreva alguma coisita para rir.
Mas hoje ainda tenho a boca demasiado amarga para sorrir.

Ana [8/18/2004 11:37:00 da manhã]