Crónicas Matinais

[ terça-feira, agosto 31, 2004 ]

 

Há assuntos sobre os quais , na minha modesta opinião, mais do que a política ,e mais do que a religião, tem de ser o nosso livre arbítrio a imperar.
O aborto é um desses assuntos. Doloroso, sempre. E custa-me que não se perceba isso de ambos os lados da barricada.
Não peço, muito menos defendo, que se esqueçam os valores e ensinamentos que nos formaram, ou formam, enquanto seres humanos. Acho é que, em vez de gritos e histerismo, se perceba que a decisão passa, apenas e só, por dois seres humanos: a mulher que está grávida e o homem que a engravida.
Não suporto a hipocrisia de quem vocifera contra quem decide abortar; nem suporto quem utiliza o sofrimento de quem aborta como arma de arremesso político.Se ,por um lado ,não se justifica que seja o Estado, ou o padre da freguesia, a decidir se a mulher deve ou não abortar, também nada justifica que, para defender o direito à escolha, o direito a abortar, se acuse um determinado grupo social,e até político, de o fazer às escondidas e de , em público, excomungar quem o pratica.
No que ao aborto diz respeito , não aceito as posições extremadas.De nenhum dos lados.
Acho pertinente , no entanto, que se chamem os credos religiosos à pedra, porque podem condicionar pensamentos, sim. Mas não podem servir de desculpa para tudo.
O brilhante e sensato Nuno Guerreiro, no post Aborto:Uma Perspectiva Judaica,chama justamente à pedra a perspectiva de uma religião, que por acaso é a minha.
Tal como noutras, há diferentes maneiras de a interpretar. Eu tenho a minha, mas tenho amigas judias que têm opiniões diferentes. Numa coisa estamos de acordo: digam os textos o que disserem, a última palavra é nossa; só pode ser nossa; e nisso nenhuma de nós cede.
O que mais me entristece, na questão do aborto em Portugal, é que a questão nunca é encarada como questão de fundo, mas sim como uma questão mediática. Que pode dar votos. Que se transforma, sempre, numa questão política.
Está errado e é uma patetice.
Tinha pensado escrever um texto sobre a forma como as religiões vêem o aborto, mas, vocês já sabem, se começo a escrever nunca mais paro...
De maneira que encontrei este pequeno resumo, que me parece, não completo, mas informativo qb.
No que me diz respeito, gostei muito de, na parte respeitante ao judaísmo , mencionarem o rabino David Feldman, cujos escritos me influenciaram muito.


Eu, tal como toda a gente, estou agora a falar de aborto graças à associação holandesa " Women on Waves".
Porque o barco que utilizam está , em águas internacionais, mas ao largo da costa portuguesa , ao largo da nossa Figueira da Foz.
Não tenho conhecimentos jurídicos suficientes para me pronunciar sobre a decisão do ministro Portas . O que me parece desonesto é que se esteja a passar a mensagem de que, a bordo, seriam praticados abortos como quem bebe martinis. Não é assim.
E chateia-me, muito, que , mais uma vez, se transforme num circo um assunto tão sério.

Termino dizendo apenas isto: da minha boca, da minha mão, não sairá - nunca - uma única palavra que seja, a condenar uma mulher que decida abortar.



Ana [8/31/2004 12:12:00 da tarde]