Crónicas Matinais

[ segunda-feira, setembro 13, 2004 ]

 

A Memória; Sempre a Memória

Ontem, e como todos os anos, realizou-se (no último domingo antes de Rosh HaShanah) a cérémonie du souverir. Uma cerimónia dedicada aos mártires da deportação em França.Às vítimas da Shoah. Na Grande Sinagoga de Paris.
Não sei explicar, mas o facto de ver reunidos , ali, sobreviventes da Shoah, do Holocausto, é de tal maneira forte, de tal forma precioso que chega a doer fisicamente. A alma, essa está e estará sempre dolorosa.
Foi, tal como é sempre, uma cerimónia simples e comovente.
Porque ao contrário do que muitos pensam ( é parte do eterno problema ) os sobreviventes não pedem vingança , nem se sentem sequer mártires.Não.
Apresentam-se apenas como testemunhas. Testemunhas.
São rostos e corpos marcados, a maioria literalmente,pelo sofrimento, mas transmitem paz.
Falam do horror sem pedirem que tenham pena deles; pedem apenas que ninguém esqueça.
Que não se permita que se volte a descer tão baixo humanamente.
E ali se reuniram sobreviventes, judeus novos e velhos , e muitos Justos.
Entoaram-se as orações , fizeram-se discursos. Tudo pela memória e nada, mas mesmo nada, pela vingança.
A Shoah perturba porque é o rosto da desumanidade.Porque mostrou até que ponto se pode descer em nome sabe-se lá de quê.
E é justamente por isso que não se pode esquecer; nunca; em nenhuma altura ou circunstância.
Nada tem paralelo. Mesmo neste mundo actual, onde a violência é tanta e tão diversificada. Nada.
É certo que quem não viveu o horror na carne não poderá nunca compreender totalmente o que aconteceu.
Fazemos uma ideia: imaginamos os horrores, a morte fria como a noite , como a neve, como o duche. A fome. A pancada, a humilhação.Os corpos sem carne. O sangue.Os sapatos , os cabelos , os óculos, as malas...
O gás. Os fornos. Os Kapos a rir. Os comboios em fila indiana. O arame farpado. Os buracos no chão repletos de corpos sem vida. A estrela amarela.
Mas nunca poderemos compreender na totalidade.
Nem chorar lágrimas suficientes.

E então , depois da cerimónia, saio com a minha avó, a minha avó judia, que tem mais de 90 anos e uma memória infinita, e beijo o rosto desses sobreviventes que , vendo-me afogada em lágrimas, me sorriem e me afagam as mãos. E tentam fazer-me sorrir.Como se fosse eu a mais necessitada de apoio e carinho.Solidariedade em estado puro.
E eu agarro-me a essas mãos castigadas,a esses braços numerados, e sinto que independentemente das críticas, da incompreensão, da injustiça e das mentiras de quem não admite que já se tocou no fundo, vou sempre lutar. Continuar a lutar. Não com armas, mas com a memória.
E quanto mais vezes ouvir «lá estão os judeus a falar do holocausto» mais falarei.
Porque é na memória que está a luz.E na voz.E na escrita.

Dei uma mão à minha avó, outra a Möse Wyman , que sobreviveu a Auschwitz e, rezando em silêncio: « Nosso Pai, nosso Rei, ilumina-nos; ilumina os Teus filhos ...», fui descendo a perpendicular à rue de la victoire a ouvi-los fazer planos para Rosh HaShanah...





Ana [9/13/2004 01:45:00 da tarde]