Crónicas Matinais

[ sexta-feira, setembro 10, 2004 ]

 

No Brasil, conta-nos o Glauco Arns Moretti, andam a matar moradores de rua.

Extinção

Jacaré do papo amarelo, mico leão dourado, bugio, jaguatirica e arara-azul são algumas das espécies de animais que se encontram em extinção. Aqui no Brasil, por exemplo, se encontram pouquíssimos destes animais, e olha que nossa natureza é uma das mais ricas de todo o universo. Infelizmente, com a matança impregnada ultimamente, outro nome precisou ser adicionado na lista das espécies em extinção: Moradores-de-rua.
Pela velocidade da coisa, esta espécie acaba muito antes de todas as outras. E ninguém sabe o porquê disso. A pele não será vendida ou empalhada. Pelo pouco de conhecimento que tenho, ainda não se faz sapatos com pele de gente. E também não conheço nenhum colecionador de humanos.
Aliás, esta espécie sequer deveria existir. Mas já que existe é preciso preservá-la ao invés de extingui-la. Ou melhor, é preciso buscar maneiras de extingui-las sim, mas não com esta carnificina estabelecida, não só nos grandes centros como também em cidades de médio porte em todo território brasileiro.
Na Noruega, só para citar, até pode ser. É bem capaz de existir um cidadão qualquer que goste de dormir na rua. Mas isso acontece por uma escolha de vida. Maluca, mas escolha. Duvido que aqui no Brasil alguma pessoa goste de morar nas nossas vias públicas imundas, por prazer. Vive nos arrabaldes por simples falta de opção. Ninguém olha pra debaixo de uma ponte ou marquise e exclama: ?- Pronto, achei o lugar ideal pra mim. É aqui que quero viver, criar meus filhos, ficar velho. Perfeito!? Estão nas ruas, porque escolheram opções erradas durante a vida. Estão nas ruas por não conseguirem abandonar seus vícios. Estão pagando pelos seus erros, seus azares, suas malezas, mas não podem pagar isso com a vida, caramba!
Que prazer que se pode ter, meu Deus, em acabar com um pobre coitado que só fez e faz mal a si mesmo? E ninguém sabe o porque disso. Ninguém consegue aceitar o ponto que chegou a irracionalidade humana. Mas a irracionalidade humana, chegou, se estabeleceu e será sumanamente difícil extirpá-la.
Se por acaso, algum morador de rua estiver lendo estas linhas, ao cobrir-se e proteger-se do frio durante mais uma noite infeliz numa calçada suja intitulada de lar, leve a sério meu recado: - Esconda-se. Estão atrás de você. Querem acabar com sua espécie. E não é para fazer sapato ou algo parecido. É pelo puro, simples, inacreditável e infeliz prazer de acabar com vidas desprotegidas, tristes, confusas e azaradas.


Glauco Arns Moretti [ glaucoarns@yahoo.com.br ]




Ana [9/10/2004 10:17:00 da manhã]