Crónicas Matinais

[ quarta-feira, outubro 20, 2004 ]

 

A História passa pela TSF

Terminou agora um momento histórico na rádio TSF. Arons de Carvalho, armado em paladino da liberdade de imprensa, estava a dizer que nem o PS, nem ele em particular, alguma vez interferiram na RTP. Declarações a propósito das supostas declarações do ministro Morais Sarmento sobre a definição do modelo da RPT. Digo supostas porque acredito que algumas das declarações foram apresentadas fora do contexto.
Ora, a verdade, tal como o azeite, vem sempre à tona . De maneira que o jornalista da SIC, Mário Crespo, estava a ouvir a conversa delicodoce de Arons de Carvalho e resolveu telefonar para repôr a verdade. E explicou, com todas as palavras, a censura que Arons de Carvalho, e do governo PS da altura, a que foi sujeito. Um processo que começou nos EUA, que passou por Lisboa e que acabou no despedimento do jornalista.
É óbvio que o caso de Crespo não é único, e casos desses existiram em todos os governos , desde o 25 de Abril. Porque todos os governos, de centro, de esquerda ou de direita, têm a tentação de controlar a RTP, a RDP e a Lusa.
Está errado; é filhadaputice, mas é assim. É uma realidade.

Agora: pressões há sempre. Em qualquer orgão de comunicação social. Todos os jornalistas, num momento ou noutro, foram pressionados. São.
Os governos têm culpa; as administrações dos orgãos de comunicação têm culpa; o mundo e a forma como usamos a democracia, têm culpa.
Mas fizemos o mundo assim.

Quando eu, como jornalista, fui censurada, ou pressionada de alguma maneira, tinha sempre duas opções: ou comia e calava ou demitia-me e botava a boca no trombone. Escolhi sempre a segunda opção, porque felizmente não tenho bocas para alimentar e tenho uma família muio generosa.

O que estou a tentar dizer, assim a quente e às três pancadas,é que é completamente idiota e porco, que um partido, que já esteve no poder, aponte o dedo e invente acusações de manipulação , dizendo que , com ele , partido-governo, isso nunca aconteceria. Pior: a falta de vergonha na cara desses seres políticos, até é esperada, o problema é quem, por ideologia política, diga Ámen e estique também o dedinho, apagando da memória as censuras e a pressões do passado.

A merda pode ser a mesma. Mas há merdas que cheiram melhor do que outras.

A ideia que está a passar, em Portugal, de censura, de ditadura, quase de fim-de-mundo!, é tão ridícula que me faz pena. Pena de quem fala do que não sabe, e pena dos que acreditam nas patranhas que lhes dão a comer. E pena de, por motivos eleitorais, por guerras de poder , se sujeite , mais uma vez, o país à chacota total.


Ana [10/20/2004 01:26:00 da tarde]